10.4.13

A morte não pode nos impedir


         Por vezes pensei em me distanciar da rotina cansativa que vivia, até que finalmente tive a oportunidade de fazer o que queria. Fui convidada para passar o final de semana em uma fazenda onde ia ter muita festa e bebida. Já havia recebido este convite antes mas dessa vez resolvi aceitar, pois precisava de distracção e não queria mais olhar para o rosto das pessoas idiotas que já conhecia.
            Na sexta-feira de manhã, arrumei uma mala pequena, fui para meu carro e dei partida. Segui para a estrada e comecei a trilhar meu caminho em direção à minha felicidade que duraria três dias.
            Com um certo tempo, cheguei à fazenda para a qual fui convidada. As porteiras estavam abertas então entrei. Avistei a casa que por sinal era grande, desliguei o carro e desci. Fui até a porta e antes de bater nela, fui recebida por um homem alto, elegante e muito pálido que me cumprimentou com um aperto de mão. Ele me disse para ficar à vontade e que ia sair para buscar um amigo mas logo voltaria. Então eu disse que tudo bem e me voltei para a casa, onde entrei. Por dentro, o imóvel parecia ser bem aconchegante, com seus móveis caros e bem feitos. Como não vi ninguém, pensei ter chegado muito cedo e resolvi me sentar, à espera de um ser vivo. Peguei no sono e ao acordar estava cercada por gente. Na verdade pareciam ser todos fantasmas, muito pálidos e bem vestidos. O mais estranho era todas aquelas velas postas em diversos lugares.
            De repente senti alguém me tocando e em seguida me levantando, andando em direção à uma grande mesa redonda, também cercada por velas, com o meio livre e parecia ser para mim. Estava certa. Fui posta entre as velas e percebi que o homem que conversou comigo quando cheguei estava me olhando de um ponto distante da sala. Passaram muitas pessoas por ele e agora ele estava mais perto de mim. Os homens que me trouxeram à mesa se afastaram e todas as outras pessoas também. Ficando somente o homem alto, elegante e muito pálido olhando diretamente para mim. Então ele segurou minha mão, deu um longo beijo gelado nela e sem tirar seus olhos sem brilho dos meus, começou a falar:
_ Minha adorada, tentei salvar-te da vida tantas vezes e você se recusou a aceitar meus convites. Finalmente encontrei a oportunidade perfeita para te tirar deste mundo e te fazer minha para todo o sempre.
            Não consegui dizer nada. Só pude ver dois homens que ainda não tinha visto trazendo uma espada e um colar com um grande pentagrama e entregá-los ao ser que dizia me adorar. Este então colocou o colar no pescoço, - todos em volta se ajoelharam -  tomou a espada nas mãos e a levantou o mais alto que pôde e voltou a falar:
_ Sua, nossa dor, acaba aqui e agora.
            A espada desceu violentamente contra meu peito e senti somente dor. A dor que o ser dizia que ia acabar era agora mais forte. Não sei explicar direito o que aconteceu a seguir. Sei que no mesmo instante que tudo era dor, ela desaparecia e eu ia me soltando de minha forma sólida e ia me tornando um ser de luz. As pessoas ao redor olhavam admirados e felizes para mim e o causador daquilo tentou me tocar e ao conseguir me tomou e deu-me um longo beijo que foi aplaudido como um belo show há muito esperado.
            O homem que me tirou a vida resolveu enfim me soltar então quem tomou a palavra fui eu:
_ Como pôde fazer isso comigo? Quem pensa que sou? Quem é você?
            E ele com um olhar muito desanimado respondeu:

_ Pensei que fosse me reconhecer. Quando estava vivo você dizia que nunca íamos nos separar. Quando o destino tomou-me a vida, minha alma percorreu este mundo em busca de uma forma de te ter de volta, pois não poderia descansar em paz sem sentir novamente a sua luz. Quando descobri o que fazer, encontrei um homem que havia perdido seu caminho e então me apossei dele. Te trouxe até aqui e fiz tudo certo para tê-la mais uma vez em meus braços. Agora que consegui, tenho a sensação de ter feito tudo errado.

_ Não pode ser você. Você está morto.

_ Também está morta e está falando comigo.

_ Mas… Isso não pode estar acontecendo. É somente um sonho e ao despertar tudo vai desaparecer.

_ Foi isso que repeti a mim mesmo por anos e nada sumiu. Pelo contrário, minha angústia aumentou. Mas agora posso seguir meu caminho em paz.

            Outro ser de luz foi visto. Aquele homem que dizia ser Christian estava agora desocupando um corpo para ser o que eu era. Sem acreditar, quando consegui enxergar suas formas de uma maneira mais convincente, vi ali o motivo da minha existência ser tão monótona. O homem a quem dei minha vida (agora literalmente) estava diante dos meus olhos apesar de estar morto. Como não era mais humana, não consegui chorar, mas dessa vez fui eu que o abracei e declarei minha gratidão antes adormecida. Pedi desculpas e ele as aceitou.

Com mais aplausos e muitas pessoas se transformando em luz, demos as mãos e seguimos o caminho que não pudemos percorrer em vida. A morte nos tornou inseparáveis e ainda existimos um pelo outro e assim permaneceremos. Até o fim dos tempos.