10.4.13

Missão contínua

            Morte. Tudo se resumia nessa palavra depois que "ele" cumpria sua missão de cada noite.



             Chovia forte e Alba se encontrava em uma rua deserta por onde sempre evitava passar, mas que naquela noite tinha sido inevitável. Ela estava calma, apesar de odiar aquele lugar, só queria sair dali o mais rápido possível. Estava quase no final da rua quando ouviu passos atrás de si. Alba se virou e não pode deixar de reparar no quanto o homem que estava atrás dela era estranho; usava uma calça jeans preta, estava sem camisa mas usava um sobre-tudo mal fechado. Tinha cabelos longos castanho-escuros e estava com a cabeça baixa. Aparentava ter mais de 40 anos. O mais anormal era que em suas mãos algo não se deixava passar despercebido; um pequeno machado que ele segurava firme. Ao notar isso, Alba apressou o passo, o homem sentiu isso e fez o mesmo.
            Agora Alba já estava aflita e correndo. O homem também começou a correr e agora já dava para ver seus olhos, negros como aquela noite, fitando-a e perseguindo cada passo seu.
            Alba virou na primeira esquina que avistou e aquela rua sempre movimentada estava agora deserta. Vendo-se sem saída, Alba começou a gritar e o homem que ela desejava poder ignorar, estava cada vez mais perto. Então, Alba resolve interagir com seu suposto futuro assassino.
_ O que quer de mim? Quem é você?
_ Não quero nada além de sua vida e não sou ninguém que você precise conhecer - respondeu o homem sutilmente, com a voz mais incrível que Alba tinha ouvido.
_ Como assim quer minha vida? Por que escolheu a mim?
            O homem riu e respondeu:
_ Bem, você apenas está no lugar errado, na hora errada. Se se preocupasse com sua vida, não passaria por um lugar perigoso a essa hora da noite.
            Alba amaldiçoou sua escolha idiota de passar por ali para não ter de aceitar a carona daquele seu colega de trabalho que não a deixava em paz.
_ Escuta, eu nunca te vi, nunca fiz nada para você. Não poderia me deixar ir embora? - Alba tentava negociar sua vida, chorando.
_ Claro que não. Não perdi meu tempo te seguindo até aqui para te deixar ir tão facilmente.
_ Por favor, faça qualquer coisa, peça tudo mas não me mate.
_ Ah, como é doce o som de sua voz implorando por mais alguns anos nessa droga de mundo. Não percebe que um dia você morrerá de qualquer forma? Não pode fugir de seu destino por muito tempo, garota.
_ Não interessa! Eu não quero morrer.
            Alba começou a correr. O homem se irritou e arremessou o machado que atingiu a nuca de Alba. Essa caiu de joelhos e logo estava de bruços sobre seu próprio sangue. O homem se aproximou da garota, tirou o machado que havia ficado preso abaixo da cabeça dela e se retirou sem olhar para trás, tendo apenas a lembrança daquela moça, de olhos abertos, vendo agora, somente escuridão.
            O homem, aquele que morava em um túmulo abandonado num cemitério próximo dali, foi caminhando vagarosamente para seu lar. Como fazia todas as noites, após seus assassinatos, ele pulava o muro do cemitério, escondia seu machado embaixo de uma grande cruz de prata e ia para o túmulo se deitar. Demorava a dormir, pois as cenas das mortes de suas vítimas iam e vinham passeando rapidamente por sua mente. O desespero de cada uma daquelas pessoas o fazia sorrir e sua solidão eterna devorava as horas até seus olhos se fecharem para abri-los horas depois e planejar a próxima morte.




          Oito da manhã. "Ele" acaba de acordar. Recebe as ordens de sua própria vontade e anda a procura daquele que só vai durar até a noite. Dessa vez, quer um homem, alguém que tenha conseguido o que ele nunca teve, esposa, filhos, família. Depois de decidir quem será o escolhido, ele volta para sua "casa", pega o machado e caminha rumo a rua deserta por onde suas vítimas sempre passam induzidas pelo estranho destino.
            Dessa vez, o céu está lindo. A lua brilha e o tempo não poderia estar mais tranquilo.
_ É uma bela noite para partir - diz "ele" sorrindo.
            O escolhido logo aparece, "ele" sai de trás do poste e começa a segui-lo. O homem percebe, nota-se que ele tem a mesma aflição de todos os outros. Seus passos ficam mais rápidos e os "dele" também. O homem pergunta quem "ele" é e "ele" sempre responde o mesmo. As coisas parecem acontecer naturalmente, até chegar o momento propício do machado fazer seu trabalho e mais uma vez "ele" pode sorrir depois de ver a dor nos olhos da vítima.
            Essa é a vida "dele". A missão que ele iniciou ao ver seus pais morrerem quando ele tinha 11 anos e que só terá fim quando chegar a sua vez de partir. O que parece estar cada vez mais distante...