10.4.13

O Diabo quer dançar


         Beatriz era uma menina de 17 anos que odiava obedecer às regras impostas por seus pais. Eles começaram a prendê-la em casa depois que ela começou a dar problemas com a escola. Beatriz xingava os professores, quebrava carteiras e rabiscava o quadro negro com seus sprays de pichar. Como estudava à noite, fugia antes do penúltimo horário para ir pro cemitério que ficava à 4 quilômetros dali. 
         Um dia, em seus passeios ao lar dos mortos, Beatriz levou consigo uma garrafa de vinho. Presente de um menino que estava a fim dela, mas que Beatriz não dava nem moral. Só aceitou o presente porque sentiu necessidade de não pertencer por uns instantes ao mundo “normal”. Conseguiu em poucos minutos o que queria, pois ficou bêbada depois de tentar tomar a garrafa toda de uma vez.
         Beatriz estava quase desmaiada em um túmulo quando lhe ocorreu que ela poderia estar fazendo a coisa errada em ser tão pouco rebelde. Em sua mente, ela achava que seus pais mereciam sofrer bem mais por tudo que lhe fizeram e pela liberdade que lhe tomaram. Resolveu que queria causar a eles uma dor insuportável e precisava da ajuda de alguém que saberia o que fazer. Então lembrou-se de um livro sobre satanismo que havia lido semana passada. Bêbada, ela conseguia se lembrar de todos os símbolos do capítulo de Como fazer um pacto. Sem pensar duas vezes, quebrou a garrafa que ainda tinha um pouco de vinho, pegou um caco e cortou seu pulso até sair uma boa quantidade de sangue. Então com o dedo indicador da outra mão, ela usou o sangue para desenhar os símbolos num túmulo branco que estava à sua direita. Em alguns instantes, depois de Beatriz gritar “Venha para mim, demoniozinho ridículo” algo bastante peculiar apareceu diante de seus olhos. Era um homem, quer dizer, não um homem comum, mas um com chifres muito vermelhos e pontiagudos.
         Beatriz começou a rir.
_ Então é isso que é o Diabo? Você consegue causar medo em alguém?
         O homem que parecia ser o Diabo se aproximou da garota e encostou uma de suas unhas longas na testa de Beatriz que gritou como se estivesse sendo queimada.
_ Ouça, garota. Não tenho tempo para infantilidades. Há muitos humanos hipócritas esperando pela morte e não vou ficar ouvindo suas gracinhas. Se não tiver algo importante para me dizer, deixe-me matá-la para acabarmos logo com isso.
_ Eu tenho algo importante a dizer. Quero sua ajuda e em troca lhe dou o que quiser.
_ O que eu quiser? Interessante. A maioria dos tolos humanos só me oferecem sua alma suja e você está dizendo que posso ter o que quiser de você? Pois bem, quero uma dança.
_ Uma dança? O que você vai ganhar com isso?
_ Não gosto de perguntas. Não irá aceitar minha proposta?
_ Claro. Então me ajude a fazer a casa de meus pais pegar fogo com eles dentro e depois que eles estiverem perto da morte, os salve.
_ Ora, mocinha. Vejo que é das minhas. Está claro para mim que será uma ótima negociação.
         O Diabo seguiu para o portão do cemitério e Beatriz ainda bêbada foi atrás dele.
         Logo estavam na porta da casa de Beatriz, onde dava para ver da janela de vidro ao lado o pai da garota no telefone e a mãe com um ar de desespero.
_ Não quer mudar de ideia, garotinha?
_ Não, eles vão ter o que merecem.
         O Diabo assentiu com a cabeça, estalou os dedos e num instante a casa toda começou a arder em chamas. Logo Beatriz ouviu os pais gritando e começou a rir. Quando seus pais já estavam fora de vista, provavelmente no chão, quase sem ar, o Diabo novamente estalou os dedos e a casa voltou ao normal.
_ Pois bem, agora a minha dança.
         O Diabo estendeu sua mão à garota e ela a segurou e no mesmo momento os dois estavam em um lugar que parecia envolto em enxofre e vulcões. Ouviam-se gritos por todos os lados e o Diabo deu o primeiro passo que parecia ser o de uma valsa. Beatriz começou a gritar desesperada.
_ O que foi, querida? Não gosta tanto de fogo? Por que ao invés de rir está a chorar?
_ Você me enganou. Disse que queria apenas uma dança e me trouxe para o inferno.
         Rindo o Diabo respondeu:
_ Não lhe disse onde seria a dança. Da próxima vez que pedir algo a alguém, certifique-se de que fez a coisa certa. Mas acho que não poderá pedir mais nada a ninguém.
         E Beatriz está ainda no inferno dançando a valsa eterna, resultado de sua rebeldia e maldade. Um futuro que não poderá ser revertido. Realmente, todos têm o que merece.