10.4.13

O futuro que nos espera

Estou condenada a viver para sempre num odiável porão, construído por perdas e ilusões, localizado abaixo de uma casa antes normal, porém invadida por demônios em forma de pensamentos todas as vezes que essa história é relembrada.
Há muitos anos atrás, quando eu tinha uma vida como a de qualquer outra pessoa do mundo comum, eu estava sentada em um balanço num quintal ao fundo de uma casa abandonada. Estava lá porque nessa época eu tinha 13 anos e às vezes fugia da casa de meus pais procurando lugares abandonados onde eu poderia ficar em paz comigo mesma sem o incômodo dos adultos. Desde muito cedo gostei de ficar sozinha. Talvez pelo fato de desde muito cedo também, assistir meus pais brigando e deixando a casa cheia de cacos de vidros e porcelana no chão. Em minha mente só conseguia pensar que todo ser humano é ruim e talvez não esteja muito errada. Voltando ao balanço, ele estava parado. Eu não queria fazer barulho então simplesmente me sentei e fiquei observando um jardim com flores mortas. Permaneci ali só observando o jardim e suas flores sem vida por um longo tempo até que ouvi alguém chamar meu nome. Olhei para trás assustada pensando que era minha mãe e que ela iria se enfurecer ao me ver ali, mas não vi ninguém, porém a voz continuava ecoando dentro da casa. Achei melhor ir ver quem era para ter certeza de que não era minha mãe e ao descer do balanço e caminhar até a casa, pisei em folhas secas que cederam e me fizeram cair em algo que parecia ser um poço vazio. Ao cair senti que estava quebrada mas consegui me levantar e apoiei-me nas paredes. Olhei à minha volta - um lugar apertado - e me senti sufocada pois estava no escuro onde havia luz apenas há muitos metros de distância, no alto. Por minutos que pareciam horas eu só fiquei pensando em como ia escapar dali. Minha primeira ideia para fugir foi procurar nas paredes algo para apoiar meus pés e mãos. Ao tentar subir, caí. Tentei várias vezes em vão até que sem forças me sentei. O ar em volta de mim parecia sufocante. Estava quase sem conseguir respirar então adormeci.
Acordei enfim e o poço já não mais existia. Eu estava em minha cama, coberta por um lençol branco e frio. Logo minha mãe apareceu. Perguntei a ela se estava com muita raiva por eu ter acabado num buraco mas ela fez uma cara de desentendimento, sorriu e disse que eu estava delirando. Pouco depois vi meu pai, com seu rosto de carácter indecifrável olhando fixamente para mim. Não entendi o que estava acontecendo então minha mãe atravessou a parede do quarto como se fosse um fantasma, olhou para trás, sorriu novamente e desapareceu. Depois de me recuperar daquela cena, levantei e corri até a parede que minha mãe tinha atravessado e examinei-a buscando aberturas mas não encontrei nada. Fui até a porta onde há pouco pude vê-la saindo do outro lado e fui impedida de ultrapassá-la pelo meu pai que me segurou e me disse para manter a calma. Era algo impossível… Como manter-se calmo quando se quer gritar? Tentei fugir de seus braços mas ele me jogou de volta na cama, me olhou com aqueles olhos azuis e brilhantes e disse “Seja firme”. No mesmo instante tirou do bolso de seu casaco uma seringa com um líquido escarlate e aplicou-o em mim. Em seguida todo o meu corpo se tornou dormente, minha cabeça doía fortemente de uma maneira quase insuportável e novamente adormeci.
Acordei mais uma vez e de novo outra cena sem sentido: o lugar em que me encontrava agora era só nuvens e luz. Busquei ao meu redor qualquer indício de que aquilo era real mas parecia mesmo um sonho, daqueles que não se pode acordar. Resolvi andar e andei até me cansar - talvez em círculos pois não havia estradas ou caminhos - e sentei-me no nada mas que era sólido. Sentada, olhei para baixo e avistei no solo branco uma passagem por onde descia uma escada de cordas e madeira. Desci por ela e o que vi em seguida foi um monte de pessoas sentados em filas olhando para uma tela branca. Corri até um homem que parecia admirado com a tela e o perguntei por quê ele não desviava os olhos de algo vazio e ele me respondeu que a tela só era vazia para quem não tinha deixado nada para trás. Não pude compreendê-lo então me voltei de novo para a tela que agora não estava mais vazia. Era como se fosse uma grande TV. O que era transmitido eram cenas que não presenciei mas que se passavam em minha casa enquanto eu estava adormecida. Levei um choque com o primeiro acontecimento: meu pai atirando em minha mãe com uma velha pistola que eu não via há muito tempo. Pude ver o espírito daquela mulher que tanto sofreu com aquele homem saindo de seu corpo em direção à janela, sua tão esperada liberdade. O que se passa a seguir é meu pai indo para o porão, subindo em um banco, amarrando seu pescoço em uma corda que pendia do teto e depois empurrando o banco e em grande agonia deixando de respirar. Também pude ver seu espírito saindo e indo em direção à pequena janela mas não conseguiu passar por ela e ficou vagando pelo porão. A próxima cena sou eu acordando e meus pais mortos indo para meu quarto. Depois que me viu minha mãe pôde seguir seu caminho. Mas meu pai, inerte em toda sua maldade, sabendo que era obrigado a viver naquela casa para sempre, quis me obrigar a ficar com ele me aplicando aquele veneno injetável. Nesse momento entendi o que estava acontecendo. Como era uma criança e não tinha feito nada de grave, também pude seguir meu caminho com plena liberdade. Ouvi novamente meu nome sendo chamado e dessa vez tive certeza que era a voz de minha mãe. Olhei para trás e a vi sorridente envolta em uma luz muito forte. Corri para seus braços e antes que pudesse tocá-la, senti algo me puxando e logo descobri que era meu pai. Ele estava em cima da minha cama, ao meu lado, me sacudindo tentando me trazer de volta para a realidade. Não era nada do que eu tinha pensado afinal, eu estava viva e aquela dor estonteante ainda estava em mim mas a dormência havia sumido. Em segundos meu pai me agarrou pelos pés e me arrastou até o porão. A corda e o banco virado ainda estava ali e havia algo mais. O corpo de minha mãe padecia sobre uma poça de sangue. Comecei a chorar e meu pai me abandonou ali e sem olhar para trás, trancou a porta. Quando ele se foi, me sentei também sem olhar para trás e ali fiquei. 
Isso se passou há muitos anos mas não posso saber com exatidão quanto tempo se passou. Sei que estou sentada no chão de um velho porão, de costas para um corpo que permanece intácto desde o último suspiro de dor e sem sentir nada além de uma imensa vontade de querer fugir. E ainda posso ouvir os passos de dança vindos da sala que suponho ser de meu pai com qualquer outra mulher tentando se desviar de seus pensamentos de remorso. Mal sabe ele que um espírito inquieto pode ainda planejar uma terrível vingança sobre aquele que da vida o tirou…