7.5.13

Apogeu

Uma velha história de amor e loucura, que conto para relembrá-la. Não que fosse preciso porque é inesquecível. Ela desejava um destino tão impossível e eu fingia concordar com tudo para que ela sorrisse. E era o sorriso mais belo do mundo. Gostava de sua presença, do modo de ver o mundo, de uma forma às vezes até doente que podia fazer seus ouvidos sangrarem ao ouvir sua opinião. O que ela desejava são coisas que nunca vão acontecer pois seriam necessárias mais pessoas como ela, o que mais uma vez, é impossível. Todas as palavras ditas por aqueles lábios nunca serão ditos por nenhum outro ser, nem podem ser descritas por mim. É algo realmente inefável. Sua hipnotizante beleza também não podia ser reproduzida nem por fotografia, ela era quase irreal. Bastante singular, também era quieta e nunca a vi conversar por mais de 1 minuto com ninguém além de mim. Era como se eu fosse especial. Como se eu fosse sua tradutora. Pena que até hoje não descobri sua língua.
Um dia, tomada pela fúria, ela surgiu a minha frente com uma camisola de cetim vermelho. Poderia ser a mais bela aparição. Eu estava deitada na grama de um imenso jardim, cultivado no fundo de minha casa, observando as estrelas quando a ouvi dizer “Acabe com a minha vida.” Após observar aquela linda obra de arte que falava comigo, notei que ela segurava um revólver. Não sei dizer se me assustei ou não. O brilho em seu olhar era tão parecido ao céu que acabava de olhar. Demorou uns minutos para eu perceber o que estava acontecendo. Talvez porque ela sempre me fazia pensar que estivesse em um sonho. Acho que ela se assustou por mim, pois disse “Não me ouviu? Acabe com a minha vida.” Me levantei e a abracei. Ela começou a chorar. Não que eu seja sádica, mas seu lamento era lindo. Ouso dizer que era perfeito. Consegui sussurrar “Por quê?” e ela com dificuldade respondeu “Porque não posso fazer isso. Acabei de descobrir que preciso de você para tudo, até para deixar de existir. Se o fizer, irei em paz. Até feliz. Por favor, faça. Não suporto mais essa inútil vida.” Quando ouvi isso, até meu insensível coração pareceu gritar de dor. Ela era a minha deusa. Nunca amei nada nem ninguém mais que a ela. Foi sufocante ouvir cada palavra pronunciada de maneira tão dolorosa. O pior é que eu sabia o motivo de seu sofrimento. Eu também o sentia. Entretanto, ela não sabia ser cínica, não escondia sua revolta ao ver que ela era única. Sim, até ela sabia disso. Para ela, ser diferente era angustiante. O que é compreensível para alguém que nunca será compreendido. O que acontecerá comigo. Serei julgada eternamente da pior forma. Nunca serei perdoada. Mas não é pelo perdão que espero. É somente uma noite sem insônia que quero. Uma noite onde eu possa sonhar com aquela encantadora mulher, vendo-a sorrir. Algo que não me lembre aquela trágica noite em que me pedia para dizer adeus ao mais perfeito ser. Pois se não tivesse me pedido isso, eu jamais atiraria em seu peito e nunca teria de ver seu escarlate sangue se misturar ao cetim vermelho.