8.11.13

Pode ser ainda pior

Num dia nublado de novembro, onde poucos pássaros cantavam em uma árvore qualquer, Victor não podia ouvi-los pois prestava atenção no rádio que tocava uma antiga canção e na frigideira ao fogo, com óleo fervendo. O telefone toca, Victor toma um leve susto e sem nenhum cuidado, sai da cozinha para atender o telefone na sala. Ao sair, esbarra na frigideira que derrama um pouco de óleo no chão. Victor não vê, apenas se retira e atende o telefone.
A voz do outro lado da linha muito lhe agrada, até deixa-o completamente esquecido de seus afazeres. Ao desligar o telefone, Victor volta sorridente para a cozinha, demora alguns segundos mas percebe que a frigideira ainda está no fogo. Vai correndo para o fogão, escorrega no óleo do chão e derruba a frigideira sob si. Um grito estrondoso é ouvido pela vizinha que corre para sua casa e ao ver o rosto do vizinho totalmente queimado, o leva para o hospital.




Victor abre os olhos. Logo vê que não está em casa, está em um quarto de hospital. Ele levanta, avista um espelho e ao ver seu reflexo, logo entende por que está naquele lugar. Seu rosto enfaixado o lembra da dor de uma queimadura causada pela distração que a felicidade te traz. Em instantes sua vizinha aparece e avisa que ele pode ir para casa.

Depois de sair do hospital, Victor agradece a vizinha pelos cuidados e despede. Chegando em casa, depois de abrir e fechar a porta, ele se ajoelha no chão e começa a chorar. Lembra de sua amada, sempre elogiando seu rosto. Ainda no telefone ela disse que ele era o seu anjo. Agora, ele parecia um monstro. O telefone toca coincidentemente. Victor não atende, na quer falar com ninguém, quer apenas se refugiar no escuro de seu quarto onde não poderá se ver. Ele se deita e dorme.
Um anjo de asas negras se senta sob sua cama. Victor abre os olhos e o anjo começa a falar: Você não tem culpa pelo que aconteceu, mas os outros têm. Todos sempre invejaram seu belo rosto, por consequência da inveja lhe foi jogada uma maldição, por isso está assim. Vingue-se!
Victor acorda assustado. Era só um pesadelo, apesar de muito real.


Os dias passam e Victor fica durante quase todo o dia na cama e durante a noite, o pesadelo sempre o perturba mandando ele se vingar. Victor já não come, mal bebe água e o pesadelo o impede de descansar. Seu corpo quase totalmente desfalecido não pode fazer mais que delirar. Victor resolve agir. Sob a pressão de pesadelos repetidos e delírios enfurecidos, ele promete a si mesmo que trará sua vida de volta. Ele pega o celular. Vê várias ligações e mensagens de sua amada e responde uma delas dizendo "Vai ficar tudo bem". Ainda com o rosto enfaixado por não ter coragem o bastante para se encarar, ele apenas veste um sobretudo e sai. O pesadelo toma sua mente. Em seguida, uma imagem aparece: Kevin, seu colega de trabalho. Por anos eles discutiram. Muitos disseram à Victor que Kevin o invejava em todos os sentidos. Inveja! Victor já sabia o que fazer.
Dirigiu-se à casa de Kevin. Sabia que ele morava sozinho e que seria fácil colocar seus planos em ação. Rodeou a casa e viu uma janela aberta. Usou-a para entrar e encontrou Kevin adormecido no sofá. Foi até a cozinha, pegou uma faca, aproximou-se de Kevin e fez um pequeno corte em sua garganta, num local estratégico onde a morte foi imediata e Kevin mal conseguiu fazer um som. Victor fechou todas as janelas e cortinas da casa e certificou-se de que as portas estavam trancadas. Ele precisou de muitos minutos para tomar coragem de tirar a faixa de seu rosto, mas assim o fez. Ao terminar, ele pegou um pano branco que estava na cozinha e pôs sob seu rosto. Deitou-se no chão e com uma caneta que estava em seu bolso, ele começou a riscar o pano de modo que ficassem nele as formas de seu rosto. Quando terminou, ele colocou o pano na mesa e olhou para Kevin. Respirando fundo, ele pegou novamente a faca e começou a cortar o rosto do colega com muito cuidado para que sua pele fosse retirada toda de uma só vez. Ele levou quase uma hora. Quando terminou, segurou a pele de Kevin e colocou-a do lado do pano na mesa. Comparando as duas obras de arte, ele moldou com a faca a feição de Kevin até que ficasse quase igual à sua. Agora havia chegado o momento que ele tanto evitara: se olhar no espelho. Era preciso para colocar a pele no lugar da sua. Antes, ele procurou por uma linha e agulha. Demorou mas encontrou. Logo achou o espelho que o fitava dizendo "você é um monstro". Victor conteve as lágrimas e continuou o que estava fazendo. Pegou a pele e colocou-a em seu rosto. Olhando para o espelho, pegou a agulha já com a linha e começou a costurar o que traria sua felicidade de volta. Estava tão cansado e abatido que mal tinha forças para sentir dor. Em alguns momentos ele parava, refletia e logo continuava, com sede do fim. Após 2 longas horas, Victor tinha um rosto bonito novamente. Sentiu vontade de sorrir, mas não conseguiu. Suas expressões estavam congeladas. Ele tentou não se preocupar com isso. Simplesmente ajeitou as coisas na casa de Kevin e voltou para a sua. Lembrou-se então de que precisava se livrar de uma pessoa; a única por perto que tinha visto seu rosto deformado. Então foi para a casa de sua vizinha, uma viúva que morava sozinha. Bateu na porta. A vizinha ao abrir levou um susto. Victor pediu um abraço, a vizinha recuou um pouco mas o abraçou. Ao fazer isso, Victor a espetou nas costas com uma faca. A mulher caiu e Victor terminou de matá-la cortando seu pescoço.
Ao chegar novamente em casa, Victor não conteve sua ansiedade e ligou para sua amada. Pediu para que ela viesse vê-lo imediatamente. Como ela estava preocupada por não ter notícias há muitos dias, foi correndo. Em poucos minutos, ela estava lá. Ao vê-la, Victor a abraçou e deu-lhe um beijo na testa. Depois, sendo questionado sobre seu sumiço, ele alegou que estava doente e que não queria ser visto daquela forma. Os dois passaram a noite juntos.
No outro dia, Victor foi o primeiro a acordar. Ele foi para a sala e ligou a tv. Alguns minutos depois, sua amada o surpreendeu com um beijo. Sob a luz do dia, ela pareceu se espantar com algo em seu rosto mas fica calada. No noticiário, um repórter está na casa de Kevin e conta com detalhes como o homem parece ter sido morto. Depois divulgam a foto do falecido. Ao lado de Victor, sua amada começa a chorar. Victor então vai ao banheiro e se olha no espelho. Assustado ele nota que não possui lábios pois não pegou os de Kevin e os seus foram queimados, entretanto as sobrancelhas de Kevin estão nele e além disso, uma marca de nascença inconfundível está em sua bochecha. Ele não tem argumentos para enganar a mulher que ama. Então, com uma tesoura em mãos ele retorna à sala e de costas para o sofá ele grita: Pois bem, este não sou eu, se me quiser, poderei tirar esta máscara agora. Sua amada não diz nada, Victor vai até ela e vê que ela está com uma faca ensanguentada em uma mão e a cabeça caída. Ele a levanta e tem a visão mais cruel que qualquer outra. Pior ainda que se ver sem pele, é ver a pessoa que você ama sem olhos!