25.3.14

[Des]ligamentos

  
"A vida às vezes quer nos afastar de tudo que amamos, mas em certos momentos, deveríamos ver que ela tem toda razão..." 
Em novembro, exatamente no dia 3, nascem duas gêmeas. Era para ser uma comemoração sem fim para a mãe Camila que se recusou a fazer ultrassom durante toda a gravidez com o intuito de deixar o nascimento um pouco mais estimulante, além disso, ela mora no interior e tem dificuldades para ir à capital. Ela sabia que seriam duas crianças pelo tamanho de sua barriga, mas não sabia o sexo ou algo mais. No tão esperado dia, após 8 meses e 28 dias de impaciência, essa mãe percebeu que surpresas nem sempre são agradáveis. Quando trouxeram suas filhas para ela ver, ainda na cama do hospital, ela sorriu, mas notou que a enfermeira estava assustada, ou pelo menos parecia estar. Ao ser questionada, ela respondeu "São siamesas" e retirou a manta que cobria as meninas, revelando uma ligação em seus ventres. Camila começou a chorar mas abraçou as filhas. Pouco tempo depois, o médico que fez o parto entrou no quarto.
_ Oi Camila, parabéns por essa realização. Sinto muito por nascerem neste estado mas elas são saudáveis.
_ Vamos poder separá-las, não é, doutor?
O médico hesitou um pouco e enfim disse:
_ Bem, tiramos um raio-x e descobrimos que as meninas só têm um coração.
_ O quê? Elas vão ficar assim pra sempre?
_ Se separarmos elas, uma morre.
Camila entrou num estado inconsolável. Logo seu marido Diego chegou, ficou sabendo da notícia e resolveu levar sua família pra casa.
O tempo se passou, Jhenyfer e Victoria, as gêmeas siamesas já tinham 7 anos. Elas eram bastante apegadas uma a outra, mas Camila tratava Victoria diferente. Ela nem disfarçava em expor seu descontentamento e a filha já estava percebendo que era a menos favorita. Um dia, ao passar pelo corredor de frente ao quarto dos pais, ela e a irmã ouviram sua mãe chorar e ao se aproximarem da porta ouviu a mãe dizer que se não fosse por ela, Jhenyfer poderia ter uma vida normal. Depois disso, Victoria nunca foi a mesma. Sempre estava triste e já não queria fazer as mesmas coisas que a irmã. Ela nunca comentou com a mãe o que sabia, mas nunca conseguiu que tivessem um bom relacionamento.
Uma década se passou e Jhenyfer falava em faculdade. Ela queria fazer medicina e os olhos dos pais brilhavam ao ouvir seus sonhos. Victoria dizia que queria ser veterinária e Camila insistia em falar que a ideia de Jhenyfer era muito melhor, portanto fariam medicina.
Numa noite de reunião em família, o assunto voltou em pleno jantar. A mãe repetiu que elas fariam medicina e Victoria deixou escapar que preferia a morte. Camila acabou surpreendendo a todos dizendo "Pois bem, se é o que quer, deixe sua irmã ser feliz". Victoria jogou seu prato e consequentemente, o de sua irmã no chão. Camila se retirou e deixou que os convidados consolassem Victoria.
Jhenyfer começou a refletir sobre o que a mãe dizia. Ela não se conformava em ter de esperar a decisão de sua irmã para poder seguir sua vida. Ela sabia que a irmã devia estar sentindo o mesmo, mas isso não era o bastante para perdoá-la. As duas agora brigavam constantemente.
Mais um ano se passou e as discussões, o desconforto e a raiva cresceram. Victoria tinha sonhos contínuos com a irmã e a mãe e acordava suando e tendo acessos de fúria. Discutia com Jhenyfer mesmo quando ela estava dormindo.
Depois de tanto sofrimento, ela quis se vingar do pesadelo que sua vida se tornara. Ela culpava principalmente a mãe por não aceitá-la e assim decidiu o que ia fazer.
Era 1h5m da manhã, quando ela começou a enforcar a irmã que dormia. Esta deu um suspiro forçado e parou de respirar. Victoria dormiu, pois também ficou fraca. Pela manhã, quando Victoria acordou, gritou o pai. Quando este chegou no quarto, Victoria disse que ao acordar notou que sua irmã não estava mais respirando. Diego chamou um médico mas era tarde demais. Victoria foi informada que ia ser separada da irmã e que apesar da cirurgia ser de risco, ia dar tudo certo. A cirurgia seria marcada por telefone assim que sua mãe chegasse. Porém, quando Camila - que havia ido para a missa bem cedo - chegou em casa e recebeu a notícia de que Jhenyfer havia morrido, ela correu em direção ao quarto das filhas e tentou enforcar Victoria, mas foi impedida pelo marido. Camila gritava dizendo que sua filha tinha sido assassinada pela irmã e começou a discutir com o marido porque ele defendia a inocência de Victoria. Diego ofendido saiu dizendo que não podia suportá-la com suas loucuras e que voltaria com uma data para a cirurgia das garotas. Assim que ele saiu, Camila foi até Victoria, olhou-a profundamente, depois beijou a testa de Jhenyfer e disse:
_ Se ela não pode viver, você muito menos.
Camila puxou Victoria pelo braço e a jogou no chão juntamente com Jhenyfer. Nem ela sabia de onde havia tirado forças mas conseguiu arrastá-las para o porão. Chegando lá, disse:
_ Você não pode escolher seu destino, querida.
Depois trancou a porta e sentou-se no sofá para esperar o marido.
Assim que Diego chegou, Camila o surpreendeu dizendo "Suas filhas estão no porão, se quiser salvar Victoria, me acompanhe."
Diego saiu correndo e assim que chegou na porta, Camila a abriu e empurrou Diego no chão do porão. Sem demora ela voltou a trancar a porta, para tornar mais difícil a fuga da família, com pouca dificuldade ela colocou um armário impedindo a saída. Em seguida pegou somente sua bolsa e um casaco e partiu deixando para trás os gritos daqueles que um dia foram sua paz.