25.9.14

Cores de Almodóvar

Sua vida era o reflexo do que viveu ao longo dos anos com sua família: brigas, separações e destruição. Tinha virado matadora de aluguel por raiva; talvez de si mesma. Já não tinha mais o coração pulsante que os pais destruiram. Tinha alguém acima dela, como todo mundo. Não, não era deus. Nunca teve tempo pra esse tipo de sonho, mas era o cara; muito mais temido e até mesmo invejado. Diferente de seus "colegas de trabalho" Suzie era tratada gentilmente por esse homem. E após anos na estrada, sem rumo ou casa, ela voltava para os braços dele, literalmente. Suzie não o podia amar mas era tudo o que tinha. O encontrou enquanto juntava os cacos e via todos pisarem em cima, este homem, apesar da fama de cruel foi a página mais bondosa de sua história. Entre linhas tortas, Suzie finalmente teve seu coração disparado, parecia jorrar sangue e energia pela primeira vez. O motivo? Uma de suas futuras vítimas. Já não bastava o destino ter traçado um irreparável caminho, ele queria que Suzie o destruísse por completo. Ela sempre soube caminhar sobre as cinzas mas agora, tudo estava mudado. Até lembrou o conto de fadas onde se finge a morte de alguém e leva o coração de outro no lugar, quando fez exatamente isso. E pareceu mágica a forma como seu mestre descobriu a farsa. "Você está mudada" ele disse "sei bem o que está acontecendo aqui". Ela não podia mentir, foi mais fácil se entregar que encarar o olhor daquele homem. "Mudei e quero que me compreenda" disse quase chorando. "Te dei um novo caminho e não posso vivê-lo por você. Mas se me desapontar, as coisas serão diferentes." Suzie e seu novo amor viveram um tempo juntos até decidirem se casar. No dia que ela nunca pensou viver, o sol sorria, mais que ela mesma. Mas os ventos pareciam trazer um mau agouro, que ela apenas ligou a seus medos passados e resolveu esquecer. Quando ela entrou na igreja, sentiu que a vida podia ser normal e bela e viajou em mil pensamentos, cores de almodóvar que se confundiram com o sangue que viu à frente. Ela nem ouviu o tiro que acertou seu amado. Só conseguiu olhar pra trás e ver seu mestre sorrindo, virando-se e sumindo. Em meio a lágrimas contidas, pensou no que teria aborrecido o assassino. Lembrou-se da ternura que costumava receber do mesmo e então se lembrou de uma frase que alguém disse antes de morrer "aceite seu destino, mudar é tolice. Aceitar te fará crescer e sonhar te fará se perder". Olhou para frente e viu olhos sendo fechados pela última vez, desejando ela mesma ter feito aquilo.