22.12.14

A dor de Alana

    Ela me fitava com aqueles olhinhos sem vida; sem o ponto de luz. Me olhava e aquele seu silêncio gritava que a culpa era minha. Sofia estava quase indo embora; seu espírito ia partir e sumir; se desfazendo em alguma galáxia. Eu não podia imaginar que um dia essa hora ia chegar. Realmente, parte da culpa é minha por me intrometer demais num mundo que não me pertencia. Entretanto, o restante da culpa é de quem governa o Destino. Ninguém deveria passar pela dor de conhecer sua alma-gêmea e perdê-la logo em seguida apenas por querer saber mais sobre sua vida. Eu não queria ter te conhecido. É muito mais do que eu posso suportar. Eu não posso suportar te perder. A única que me ouviu nas noites em que eu estava inquieta ou nos dias em que eu estava desiquilibrada foi você. Você está comigo há uma década; sua imagem está grudada à minha. Sei que vou andar todos os dias vendo sua sombra guiando a minha. Seu rosto estará no espelho do banheiro todas as manhãs quando eu acordar; sua risada vai ecoar com a minha; seu perfume estará nos livros. E agora, eu tenho a certeza que a minha sentença por existir é você. Você nunca irá embora. Só sua melhor parte se vai e o resto ficará pra me atormentar e lembrar que amar doi.
    Sofia, não sei como recuar e cada minuto com você se esvaindo é uma pontada no peito. Não sei como parar a dor; interromper esse amor. Acabaram-se todas as minhas chances de ter paz; anularam-se as possibilidades de deitar e dormir sem o peso da sua presença morta. Eu nunca mais vou dormir direito porque sei que você vai estar em meus sonhos. Quer saber? Talvez tenha sido tudo um sonho. Você é um sonho. É óbvio! Agora eu entendo como é possível você me ouvir, me ver e até sentir; como a falta de vida lhe faz viver. É mesmo um sonho então. Eu devo ter ingerido o que não devia ou foi o anti-depressivo que tomo para esquecer a infelicidade da solidão de si mesmo. É, foi por isso que você apareceu e me salvou de mim mesma. Como pude acreditar em você e no seu jeito perfeito? A perfeição não existe, você não existe, talvez nem eu exista. Eu odeio ter te conhecido. Pode ter sido sonho mas as cicatrizes são bem reais. Como me iludi por uma boneca? Sim, sonhos são insanos. Esse foi longe demais. Sonho mais real e doloroso não poderia haver. Parece que seus olhos sem vida sempre foram assim. Você não tem vida. Ainda assim o silêncio grita: A culpa é sua.