27.3.15

O manto da loucura

Eu tenho andado esquecida, tão esquecida que às vezes esqueço literalmente qual o próximo passo a dar. Eu não sei que cor é o céu mesmo não parando de olhar pra ele.
Não sei se o vento sopra para o sul ou norte porque sou incapaz de senti-lo; sinto somente o calor do inferno. 
Não caminho para chegar a algum lugar - ou talvez caminhe mas, não me lembro para onde ia. 
Não sei me entregar à vida então observo as sombras atrás da Senhora Morte. Mas não a vejo. 
Creio que não vejo mais nada que faça parte da realidade. 
Paz? Isso eu tenho já que não faz parte desse mundo. 
Em momentos de silêncio eu imagino uma companhia. 
E, por algum motivo ainda desconhecido, ela tem perfume de champanhe; como se viesse para celebrar o novo, me dando a sensação de que não envelheci por causa da loucura. 
Ela não pode me abraçar pois seu manto negro esconde apenas o corpo que ela não tem; não pode me aconselhar pois sua boca foi costurada com a linha do raciocínio; no entanto, ela me vê com seus olhos de rubi e me escuta com suas orelhas pontiagudas às quais nada escapa. 
E cada suspiro meu é como o barulho da sirene de um navio. 
E a cada suspiro meu ela perde 1 dia de vida. 
E a cada suspiro meu eu perco mais ainda a noção de que estou perdendo alguma coisa.