31.3.15

Yasmin

        “O amor é uma loucura que só se cura com mais amor.” 

        Após anos de desordem sentimental, não posso dizer com precisão quando foi que a vi chegar. Freneticamente meu peito pulsa ao tentar lembrar. Sei que seus olhos me seguiam pelas ruas próximas à minha casa mesmo quando era tarde e não havia ninguém ali. E seu perfume estava impregnado em mim mesmo depois de passar uma hora no banho tentando me livrar dele.

        Acho que eu estava lendo um romance qualquer na biblioteca para o trabalho de faculdade de um amigo quando notei sua presença. Impressionante como só a voz dela pôde me despertar da letargia de um livro ruim. Foi como se o ar que entrava em meus pulmões voltasse a fluir. No primeiro olhar que ela dirigiu a mim meu corpo foi tomado por um calafrio e a sensação absurda de que o amor havia chegado. E era o tipo de amor convulsivo, criado somente por poetas loucos e afastados da sociedade. Ela foi embora antes que eu conseguisse fechar minha boca.

         Na volta para casa, enquanto sentia sua presença em cada esquina e, enquanto me virava a cada minuto como quem acha que está sendo seguido, eu me perguntava se poderia ter sido mais idiota ao demonstrar meu interesse em alguém que obviamente sabia o poder que tinha ou se meu erro foi não ter lhe dirigido a palavra. Eu só sabia que a queria, que era ela meu destino mesmo que o mesmo fosse apenas segui-la como aquela presença naquele momento me seguia.

         Eu passei a me importar mais com aquela estranha que com meu próprio futuro e, com pouco custo, descobri que ela estudava no andar de cima do meu. Eu fazia medicina porque era fraca e não soube dizer não para os sonhos dos meus pais e ela, filosofia, porque provavelmente era boa demais para estar no nosso mundo sem sentido e preferia o bem-estar das explicações fascinantes de pessoas como ela. Assim que pude, tive coragem de dizer um “oi” ao qual foi retribuído com um aceno de cabeça. Eu a vi ir embora e senti o momento como quem sente a dor de uma despedida eterna. Mas quem disse que eu era capaz de desejar mais que isso? A dor era tudo que ela me dera. E eu guardaria com cuidado para que não fosse embora também.

         Numa noite insensata em que meus pensamentos podiam quase ser ouvidos por quem me olhava, resolvi me distanciar e, sei lá por quê, fui ao cemitério. Foi ali que eu a vi mais bonita que nunca, deitada num túmulo grande e cinza, no qual seu vestido negro e longo quase o cobria. Ela tinha os olhos fechados e emanava indiferença, como se nada além dela importasse, como se ela fosse o próprio centro do Universo. E, para mim, ela era. Eu não fui até ela, apenas me virei e fui embora. Até porque a paz que eu tinha ido buscar foi engolida e com certeza descansava nos pulmões daquela mulher.
         Os dias passavam como passam os carros numa avenida; sem motivo e importância para quem está do lado de fora. E passavam rápidos como meus pensamentos. Toda noite eu ia ao cemitério para observá-la. E, quando a lua resplandecia no céu de uma quinta-feira, eu a vi olhar para mim. Gelei como se tivesse visto meu futuro assassino. Ela quebrou o silêncio em um milhão de pedaços ao dizer “sente-se comigo”. Eu demorei uns segundos para voltar à Terra e então caminhei até ela para me sentar num túmulo que mais parecia o trono que me faria governar meu reino de ilusões. Eu não soube falar nada até ela recitar um poema que eu desconhecia e dizer “De agora em diante seu atrevimento foi a assinatura do seu contrato comigo. Você é minha. E não, não significa que preciso ser sua.” E eu disse “Sim”. Minutos depois isso pareceu loucura mas naquele momento eu estava encantada pela perfeição de um ser humano que já não era mais tão humano assim. Eu podia jurar que ela era uma bruxa e que havia jogado um feitiço em mim. Mas claro que era mais uma ideia absurda em meio à insanidade da paixão que me sequestrara. Não lembro como mas fui embora e, a partir dali, todas as noites o contrato era selado de novo e de novo com beijos e citações que eu nunca entendi muito bem.
        Os meses se passaram sem que eu soubesse em que estação estava. As folhas caíam como meu mundo enquanto eu iludidamente achava que estávamos na Primavera vendo as flores ressurgir. Eu não recebia mais visitas, mal comia, não estudava, ia para a faculdade apenas para ver que era um bom lugar - já que tinha a presença dela. No entanto, em momento algum ali eu consegui ouvir sua voz a não ser que ela estivesse falando com outra pessoa. Nossos encontros, nosso relacionamento nostálgico só se faziam presentes sob o solo sagrado daqueles que nunca poderão saber quanta miséria uma alma é capaz de proporcionar à outra. Miséria é a melhor palavra para definir o vazio que eu me tornei; eu tinha apenas uma casca humana mas por dentro, eu não existia, não tinha riqueza de ideias nem mesmo sonhos. Eu estava automaticamente ligada à ela. Com ela eu não era ninguém, sem ela eu era menos ainda.
        Ainda hoje preciso ir vê-la. Ainda preciso ir tomar minha dose de Yasmin para vomitar minha sanidade mais tarde, enquanto estiver na cama lembrando da sua boca dizendo “Deixe em testamento sua dolorosa perda” enquanto a música que transmite essa mensagem terminava e levava com ela meu contrato e meu desassossego. Ainda hoje poderei relembrar a única coisa que deixarei neste mundo quando esse forçado amor finalmente me tirar a vida e me devolver a esperança de ter paz. Talvez mais tarde Yasmin se deitasse em meu túmulo e pudesse repassar a tarefa de lutar para existir. E, eu só desejaria que chovesse para ela não notar as lágrimas do meu fantasma eternamente apaixonado e derrotado.