28.4.15

Quem pode matar o amor?

"Os ventos circundam as montanhas do leste e à aurora boreal se misturam seus espíritos."

         O sol aqui se põe as 7 da noite sem falta. E a partir daí minha vida era tomada pelo sentimento de liberdade. Era quando eu podia sair e encontrá-la. No entanto minha viagem para vê-la era longa. Eu passava pelo campo dos espíritos amaldiçoados, pelas nuvens de almas perdidas por todos os anéis de Saturno até encontrar sua dimensão. Ela vivia na Terra, era humana como um dia eu pensei ter sido. Morava com a família e eu podia vê-la quando ela estava em seu quarto sozinha; lendo ou tocando flauta. Ela era o motivo pelo qual ainda não tinha saído das trevas para encontrar a luz minhas não importava porque ela era a minha luz. 
        Eu costumava chegar na janela depois da meia noite. Ela olhava e incrédula ficava muda. Parece que nunca se acostumava com minha presença e fazia 6 anos que eu a visitava. Somente uma vez trocamos alguma palavra, a partir dali ela sempre fingia que não me via. Como podia eu amar tanto alguém que não fazia questão de me notar? Eu só sei que meu amor simplesmente crescia e todos os dias era preciso lutar para vê-la assim como era necessária lutar para não matá-la e trazê-la comigo. Ela olhava de meia em meia hora e assim se sucedia até as 4:30 da manhã; mesmo que ela dormisse, mesmo que ela tivesse a audácia de fechar a janela ou até mesmo as cortinas, eu permanecia lá; absorvendo sua presença mesmo que ela não sentisse. Eu sentia por nós, eu sabia sentir até o toque de sua pele exatamente quando eu a sentia em vida.
        A nossa história começou há 9 anos. Namorávamos e tínhamos a ligação mais extraordinária que um humano poderia experimentar. Éramos como a lua e as estrelas, inseparavel e apaixonadamente ?. Mas aí por ironia do destino ou porque a vida tem de ser como a gente não espera que ela seja, um acidente aconteceu. Sei que a causa da minha morte foi dada como premeditada, eu duvido que isso seja verdade. Foi um acidente, é claro. Um acidente causado pela insegurança plantada em sua mente por pessoas que não aceitam uma felicidade maior que a própria. Era domingo e estávamos com sua família. 
        Como sempre o clima de antipatia reinava e ela me disse "precisamos dar uma volta". Entramos no carro e seguimos por uma estrada próxima a sua casa que eu nunca soube onde ia dar. O passeio levou uns 5 minutos e era como se fosse infinito pois cada palavra afiada me envolvia como uma corda tentando me enforcar. Ela dizia que não podíamos ficar juntos, que cansou de tudo e todos serem contra nós, disse várias e várias coisas que eu já não entendia pois me perdia em lembranças incomparáveis que significavam a mesma coisa: amor. E ali, naquele carro, tudo foi transformado em ódio e dava para ver esse sentimento escorrendo pelas lágrimas que ela não conseguia conter e, que de repente, se misturaram ao sangue. Foi a última imagem que tive dela enquanto eu respirava. Seu rosto lindo batendo no volante enquanto eu batia no para-brisas e desacordava. Ela jogou o carro contra uma árvore. Ela tentou nos matar mas quem se foi fui eu, mas eu sei que ela sabia que não era para sempre.
        Relembro esse dia todas as vezes que estou nessa janela. Hoje, relembrando pela milionésima vez, eu entendi que nascemos um para o outro e seu lugar é comigo, custe o que custar.

         
          Hoje é o grande dia. Minha amada se juntará a mim. Soube enquanto a espionava que ela iria sair. Vai em uma festa. Ela vai de carro. Eu entrei como quem entra num teatro para ver uma peça famosa; cheio de expectativas e incertezas. Mas nem tudo em mim era insegurança, eu estava seguro de uma coisa; tudo iria voltar ao normal. Ela se assustou mais que sempre. Me olhou firmemente e, pela segunda vez em anos, falou comigo. Ela disse "suma" e eu disse "ligue o carro e siga seu caminho normalmente". Pensei que ela fosse questionar, mas ela girou a chave e fomos para a mesma estrada que me levou para a morte. Eu precisei de 3 minutos para ter coragem de tocar nela e foi aí que ela se descontrolou e bateu no carro que vinha na outra direção. Dessa vez o sangue que eu vi foi numa quantidade bem maior. Ela morreu. Eu senti sua respiração indo embora com o meu bom senso. Mas agora estava feito. Saí dali e voltei para o meu lar. Em meio a vozes, eu ouvia a voz dela mas sabia que era mera ilusão. 


            Mais 2 anos se passaram até que eu a vi. Ela finalmente chegou aonde eu havia chegado. E ali, com tantos outros espíritos, parecia que finalmente éramos como os outros e ninguém notou que éramos diferentes de todos porque amávamos. Ela correu para mim. Ela disse "eu sempre esperei por isso" e foi aí que a mesma certeza de sempre se juntou à névoa: nascemos para ficar juntos, mesmo que para isso tivéssemos que nos matar. E os humanos, esses podem nos ver dançando com nossas almas entrelaçadas às cores da aurora boreal.