9.7.15

Última festa

     Um vazio ocupa alguma coisa? Se sim, ocupava a mente de John. E aí, entre um vestígio de pensamento e outro ele conseguia ter alguma vontade. O problema é que tanto vazio lhe tirou qualquer oportunidade de se importar com algo. Sua vontade era matar no outro o que já tinha morrido em si mesmo.
     Havia um bairro próximo ao centro da cidade onde festas perduravam pela madrugada. John pegava seu carro e ia para a porta das boates nos horários que poucas pessoas estavam indo embora e oferecia carona para uma mulher qualquer. Após alguns "não" ele sempre ganhava um "sim, muito obrigada". John perguntava o destino e seguia o caminho certo para chegar até ele. A pessoa no banco do passageiro até trocava ideias com aquele homem de bom coração que ia melhorar sua noite.
     Alguns metros antes do destino, John parava o carro, olhava docemente para a direita e, de repente, sem que a vítima soubesse de onde, ele tirava uma faca e golpeava o ar sem alvo definido. Dessa vez ele acertou a costela. Então sorriu e desceu do carro. Deu a volta e abriu a porta para que a vítima descesse. Ele diz "desce" e a pessoa que está a sua frente até tenta mas, o medo torna a dor e a incapacidade maiores. Então John agarra a jovem e a joga no chão. Diante do desespero - um sentimento verdadeiramente notável e belo - John sorri novamente. Quebrando o silêncio sua voz ecoa nas ruas ausentes de vida:
_Você tem 1 minuto para chegar até sua casa.
     John acende um cigarro e encosta no carro. Enquanto cada trago parece ficar mais doce, para sua vítima cada centímetro parece ficar mais impossível de alcançar. 6 tragos e meio metro depois, John caminha vagarosamente. A vítima, por sua vez, engole um pouco de ar com umas gotas de ilusão para apressar o passo como se não fosse tarde demais. John pega a mulher pelos cabelos, sente o cheiro do condicionador se misturar ao cheiro do pavor, sorri como até então não havia sorrido e degola mais uma garganta que nem mesmo teve tempo de gritar pela última vez.
    John segue em frente. O que ele fez é rotina; faz parte de um mundo que empobrece mais rápido que seus golpes. John volta ao volante e sua mente volta a se assemelhar àquelas ruas. A quietude vai durar muitas horas até sentir falta de matar novamente. Até lá ele volta para sua casa para depois se dedicar ao trabalho na ONG que resgata jovens da prostituição. Afinal, cada um ajuda o mundo como pode.