11.8.15

Não sonhe

Sonhos... Para alguns, esperança; para outros, perda de tempo e, para mim, um modo de continuar existindo.

Todos somos iguais quando resumimos nossas vidas; nascemos, crescemos e morremos. O que muda é a forma como cada um faz coisas comuns. O meu modo de morrer, por exemplo, foi diferente de muitos – ou todos. Não tinha como ser mais trágico... Era meu aniversário de 21 anos; me sequestraram da minha própria festa, me levaram para uma mata isolada e, enquanto 2 homens me seguravam para que eu parasse de me debater, 1 me enforcava com um arame farpado encontrado no chão. Acharam meu corpo muitos dias depois mas, na realidade, eu estive por perto sempre.
Cada noite estou numa casa diferente. Sento-me no canto de qualquer quarto que tenha alguém dormindo e movo minhas mãos no ar. Imediatamente quem está na cama se move também. Dessa forma, me sinto viva. Encontro nos outros a possibilidade de fazer a diferença no mundo dos vivos. A cada movimento criado me ligo à minha vítima – se é que posso chamá-la assim. Afinal, não vejo mal no que faço – então, criada a proximidade, o próximo passo é recriar minha imagem em sua mente. Confesso que devo causar um pouco de medo dessa forma que estou; com uma cor pálida esverdeada e marcas escuras no pescoço e em mais algumas partes do corpo onde me apertaram. Além disso, meu cabelo desgrenhado e meu vestido branco rasgado me dão a aparência de uma louca. Sabendo disso, para cada mente tenho uma fantasia. Quer dizer, é a fantasia da própria vítima. Eu apareço do jeito que a pessoa quer que eu seja; deslumbrante. Então, tendo tomado posse do seu desejo, eu roubo seus sonhos para mim; para que vaguem comigo atrás de novos.
Feito tudo isso me levanto, me escondo nas sombras e assisto ao belo espetáculo de quem se acorda sem saber onde está; espetáculo no qual eu já atuei. Os olhos se abrem mas não há luz; somente pensamentos obscuros que trazem mais escuridão. Você se senta, tenta se recompor mas logo a inquietude te levanta e você anda de um lado para o outro, como se fosse chegar a algum lugar. Descobrindo que não existe destino, nem sequer direção, você desiste e passa a assistir o espetáculo dos outros. Não sei como isso é para os vivos pois não demoro a me retirar. Passo os dias lendo notícias das minhas vítimas que se suicidaram mas, em um jornal não se escreve o motivo a não ser que deixem uma carta explicando. E, como explicar se não se entende? Pelo visto, é isso que acontece; um nada absoluto reinando dentro de você, substituindo sua alma; fazendo com que você seja nada. Bom, para mim não há modo de fugir porque já estou morta. Creio que esses suicidas logo se darão conta e encontrarão um meio de se sentirem melhores; todo fantasma encontra. Amanhã penso mais nisso pois já é hora de procurar a próxima casa. Quem sabe não nos vemos essa noite, não é mesmo?