1.7.16

A vingança tem 1200 graus

 Eram 16:25hs. Minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho. Todos os dias esse "não chegar" cobria minha vida de medo. Hoje, tudo ultrapassou os limites. Inclusive esse medo.
   Ele, o marido da minha mãe; marido carinhoso, dedicado, esforçado; era o meu pesadelo real. Todos os dias ele chegava as 16 hs, tomava banho e, de propósito, sem se dar ao trabalho de por uma toalha, passava na porta do meu quarto e exibia sua insanidade tão bem ocultada por qualidades mecânicas. Confesso que criatividade ele tinha de sobra. Cada dia era uma dança, uma encenação, uma tentativa, uma monstruosidade diferente. Nunca contei para a minha mãe. Ela ficava tão feliz quando chegava e seus olhos se encontravam com os dele. Eu - e qualquer pessoa que visse - era capaz de acreditar no amor inabalável deles. Minha mãe já tinha sofrido demais. Sei que ela não queria que o mesmo acontecesse comigo mas, ela tinha 42 anos e eu 16; ainda não tinha sofrido nem 1/4 do que a vida reservara para mim. Se eu não fosse forte agora, não conseguiria depois.
   Voltando a esse dia fatídico - essa data que seria melhor preenchida com o dia dos finados - ele estava diferente. Eu nunca lhe dava atenção, me mantinha na cama com os olhos presos ao livro mas, hoje, ele exigia que olhasse os dele.
_Olhe nos meus olhos, Catherine.
   Eu olhei. Olhei e me perdi. Eles brilhavam como um assassino admirando o furo de uma bala que ele mesmo disparou. Era um brilho doentio que provava que o olhar era mesmo capaz de falar pois diziam "dessa vez não existe saída".
_Você não gosta deles e nem do dono deles, não é mesmo?
   Fiquei calada. A resposta era óbvia demais. Só queria dizer que "não gostar" era muito pouco. No entanto o medo havia me paralisado.
_Não vai falar nada? Então vai fazer!
   Nesse momento ele veio para cima de mim com ódio, me puxou pelos cabelos e bateu minha cabeça no espelho da cômoda que quebrou e cortou minha testa. Eu fiquei tonta mas não desmaiei. Não naquele instante. Ainda fui capaz de ouvir ele dizer:
_Você não é o tesouro da mamãe; você é um lixo e o que eu quero te dar ninguém mais vai dar com prazer a você.
   Ele começou a rasgar minha roupa enquanto eu me debatia em vão. Até que tudo escureceu.
   De repente nada mais fazia sentido. Estava numa cama de hospital sozinha num quarto claro demais. Se tivesse um vestígio de esperança em mim até as 4 da tarde daquele dia havia sumido. Talvez no lugar tivesse nascido uma pontinha de vontade de cometer suicídio. E aí, enquanto eu decidia qual método usar, minha mãe surgiu na minha frente. Estava chorando com aquele jeito de quem precisa disfarçar que está desolado para lhe passar força mas só consegue passar a impressão de que o mundo está desabando.
_Você está bem? - Perguntou.
_Não sei. Como eu vim parar aqui? Ele... conseguiu?
_Eu nunca deixaria! Cheguei a tempo de pegar o taco de baseball do seu pai e acertá-lo na cabeça.
_Então ele morreu?
   Sua expressão que aparentemente não tinha como ficar mais trágica simplesmente mudou para desespero total. Ela balançou a cabeça muitas vezes antes de finalmente falar:
_Morrer seria o justo. Se a vida fosse justa você não estaria aqui.
   Então eu entendi que não deveria me arrepender de ter mantido segredo. Se eu não tivesse passado por isso agora, mais tarde qualquer bobagem me abalaria. A partir daí iniciou-se uma nova etapa tanto para mim quanto para minha mãe; que ganhava mais força a cada decepção. Era quem eu queria ser. Então eu esqueci de tudo afinal, podia ser pior. A vida estava nos dando uma segunda chance e eu não podia recusá-la. Mudamos de casa, terminei o ensino médio, comecei a trabalhar e conheci o Joe.
   Eu tinha 18 anos. Ele foi comprar peças para o carro na loja que eu trabalhava. Eu era vendedora mas estava saindo para o almoço. Então, como se o destino quisesse mostrar que existe, no mesmo instante que ele se virou para sair de perto do balcão, ele esbarrou em mim.
_Toma mais cuidado, idiota - disse eu. A vida tinha me dado bom senso mas o preço a se pagar era perder boa parte da paciência.
_Desculpe, eu não vi.
   Ele pediu meu número para outra pessoa que trabalhava comigo. Me ligou no dia seguinte, nos conhecemos, começamos a namorar e aí acabou. Simples assim. O destino só queria brincar um pouco, talvez tivesse me achado distraída.
   Joe gostava muito de mim, gostava tanto a ponto de não fazer o que eu queria. E o que eu queria? Cordas, velas, algemas, dor. Eu não havia experimentado isso com ninguém; era virgem mas, em meus sonhos e fantasias quase ausentes, isso sempre aconteceu. Com ele senti que podia me abrir mas o que eu ouvi foi:
_Você é louca, não posso te dar esse tipo de amor, aposto que nem sabe se gosta de mim; é tão doente que não deve saber o que é amor.
   Era hora de seguir o exemplo de quem eu mais admirava e engolir aquele sentimento de derrota junto com meu orgulho. Tudo bem, eu era capaz. Eu "seria" capaz...
   Minha mãe morreu no mesmo dia. Ela foi atropelada por um ônibus descontrolado numa avenida deserta onde só ela passava na rua. Destino? Bom, se foi ele eu gostaria de amaldiçoá-lo. Você não tinha esse direito. Perder uma pessoa que não se conhece direto era suportável mas, perder seu alicerce, seu teto, seu ar; como ele achava que eu ia respirar? Eu me vi na cama daquele hospital novamente, pensando em suicídio; em cordas, facas, altura, dor. Então eu me joguei no chão e comecei a chorar. 2 horas foram o bastante para levar 2 anos de esperança. Restou o vazio.
   Eu segui minha vida. As pessoas me olhavam como se não fosse possível estar de pé em tais circunstâncias mas, eu não sentia mais nada então fiquei. Eu tinha que entender a razão de estar nesse mundo. Eu não aceitava que tínhamos de dar tanto valor a algo que nos obriga a não dar tanta importância para ficar bem. Eu precisava do sentido e não tinha a direção então permaneci onde estava. Voltei a trabalhar; a casa tinha ficado para mim então adotei um cachorro e, todos os dias quando eu voltava, tinha uma nova vida para me iludir. Em alguns meses a sensação de estar intocada me preenchia. Resolvi frequentar bares e boates. Conheci muitas pessoas "interessantes" que logo mais se mostraram "insuportáveis" devido às insanas lembranças e vontades monstruosas. Talvez eu tivesse que aceitar que todos tinham um monstro interior. Qual seria o meu? Em que momento ele viria a tona revelando meu verdadeiro eu? Eu não pensava que até eu mesma poderia estar me enganando. Então lembrei que não me conhecia; tinha ficado muito tempo presa a esse vontade de seguir em frente como se eu precisasse ser mais forte que todos e não tanto quanto eles. Assim, eu evitava pensar nos meus reais motivos de fazer o que fazia. Tudo veio de uma vez em minha mente. Era demais para suportar. Era demais para esquecer. Comecei a beber muito e todos os dias. Eu só sabia o que era sorrir naqueles minutos em que tudo roda e você ri pra não chorar. No resto do tempo, eu caía pelos cantos e chorava para não rir de mentira.
   Ontem recebi uma ligação de meu ex padrasto dizendo que só agora tinha ficado sabendo da morte de minha mãe e que queria me dar uma ajuda em dinheiro. É... Quando não sabemos mais onde enfiar a cabeça para fugir ela te dá um puxão de cabelo pra você obrigar-se a levantar.
_Tudo bem, vou te passar meu endereço, venha as 16hs e conversaremos.
   Dessa vez não ia ter destino, tragédia ou engano que pudesse escrever minha história; eu ia escrever e seria com sangue.
   Às 15:59hs ouvi batidas na porta. Abri e, com dificuldade para disfarçar o nojo que senti ao olhar para aquele homem, mandei ele entrar. Ele se sentou na mesa da cozinha, ofereci um café e ele tomou. Eu não. Apenas sentei, olhei nos seus olhos com vontade pela primeira vez e esperei o "café" fazer efeito. Em alguns instantes ele estava inebriado. Então gritou:
_O que você fez, sua vadia?
_Nada ainda.
   Só nesse momento bebi alguma coisa. Tinha me segurado até ali para apreciar melhor tal momento. Uma dose de absinto foi o bastante para imaginar que aquele seria meu conto de fadas com final feliz. Fui para cima do monstro e, segurando sua cabeça que mal conseguia se manter no pescoço, disse:
_Minha mãe não conseguiu mas eu não posso ser minha mãe. É por isso que ainda estou aqui.
   Então arrastei o homem para o microondas, colocou sua cabeça dentro e empurrando-na para que ele não escapasse, liguei o temporizador. Quando o microondas queimou e ouviu-se um estalo comecei a sorrir. Porém, esse ainda não era meu final feliz. Bebi uma dose bem mais exagerada, suspirei e, com a maior e mais afiada faca que encontrei, meu estômago perfurei.