5.8.16

Itinerários

            Era uma tarde como outra qualquer, se você considerar que em todas as outras existem jovens à procura de si mesmos em teatros. Nessa rotina que se estendia em quase todo o mundo, em uma minúscula parte dele, 4 alunos ensaiavam sozinhos uma peça pouco convencional para o teatro de uma cidade pequena mas, grande o bastante para abrigar mentes como aquelas que compartilhavam da mesma expectativa em relação a apresentação.
         No intervalo, Aline e Helena conversavam:
_Meu pai não acredita que eu deixei de ir no encontro idiota com a namorada dele para ensaiar uma peça de terror – disse Aline.
_Não é terror. A menos é claro que a vida seja uma peça de terror. A morte está presente em cada pausa de sua respiração, em cada sombra, em cada deslumbre que tira sua atenção.
_Em que parte da peça tem isso?
_Em nenhuma.
       Aline não entendia como uma peça que gastava pouco mais de uma semana de ensaio podia fazer emergir tais pensamentos em alguém como Helena – vibrante, espontânea, alegre, dedicada; nada que fizesse lembrar que tudo isso tem fim. Agora Helena era só mais uma das pessoas que vagam pelas ruas com trajeto traçado desde o ano passado e que não muda porque a vida é simplesmente assim; esmaga sua positividade dia-a-dia e a faz pensar que não deve sair da linha. Enquanto a decepção recrudescia em Aline, Kailan fazia perguntas que quase se solidificavam ao bater nas paredes e voltar em forma de eco.
_Eu estava pensando no sentido do que fazemos. Se interpretamos o que acontece diariamente, onde está o valor disso, quer dizer, somos úteis mesmo?
_Cara, você está deixando esse tema que você mesmo escolheu afetar sua mente negativamente. Se não fôssemos úteis já teríamos sido extintos – defendeu Alberto.
_Não sei. Muitos animais extintos me pareciam mais úteis que muita gente por aí.
_Pode ser mas, o que importa é que já conseguimos a atenção que queríamos. Depois de amanhã é o grande dia e muitas pessoas estão dispostas a pagar para ver nosso espetáculo “comum”.
        Kailan não parecia ter se conformado mas viu que o amigo jamais ia agregar à seu sonho de ser um ator famoso qualquer coisa que o fizesse desviar de seu itinerário. Então, pouco confiante anunciou:
_O ensaio acabou, vamos repassar do começo.
        Aline deixava de ser a filha que não recebia atenção para incorporar Brenda, uma garota mimada cujo pai tinha morrido. Ela, a mãe e o padrasto conviviam em harmonia com mais 2 irmãos. Essa mãe era quem Kailan queria mostrar ao mundo. Alice Scott era a personagem principal das fantasias de Kailan que amava a mente dos psicopatas e seriais killers. Alice matou sua família no meio da noite e depois se matou, sem motivo visível aos olhos de quem não frequentou suas inquietações. Se ao menos os filhos notavam atitudes estranhas vindas da mãe, ninguém sabia nem poderia saber pois morreram sem contar nada a ninguém. Alice era religiosa, simpática, cautelosa e, enquanto estava viva colecionava amigos e admiradores. Kailan sentia que compartilhava do sentimento que a fez cometer uma loucura. Ele não tinha uma informação concreta, é claro, mas sua mente criava mil e uma suposições e resolveu expor uma delas para os amigos que, de início não gostaram muito da proposta mas, acabaram por ceder já que estavam cansados de romance e comédia. Era hora de tentar algo novo. Não se pode dizer ao certo se por influência da peça ou das cinzas das noites em claro que passava lendo estórias extraordinárias mas, o fato é que Kailan não era mais o mesmo na última semana; estava sempre pensativo indagando consigo mesmo se valia a pena deixar de lado tantas coisas para seguir sua carreira. Afinal, se até uma história como aquela era só mais uma que integrava as memórias do seu país, o que seria a sua história? Já era hora de pensar em algo mais sólido que seus papeis. No papel de Brenda, Aline se sentia um tanto inconformada com sua vida também; mesmo sendo só uma peça, a aparência de Alice lembrava a sua e ela nunca tinha sido protagonista mas, é claro que Helena era mais indicada para o papel; ninguém suspeitava que em sua cabeça passasse pensamentos assassinos. Helena não faria isso na vida real, era o que Aline pensava – talvez como qualquer um – mas depois de trechos melancólicos sobre vida e morte dita dos lábios da colega ela não podia deixar de perder 5 segundos a cada 5 minutos olhando para Helena imaginando se ela também não seria dissimulada mas, devido ao instinto natural humano de negar o que não quer que seja verdade, esquecia para depois questionar quem seria ela mesma se não tinha certeza nem sobre quem escolhia para se relacionar. Alberto era o mais neutro naquela trama, assim como era na vida real. Ia interpretar o marido; o personagem que menos teria atenção. Kailan era um dos filhos que passou a ser o único irmão de Brenda, já que não encontrou mais pessoas interessadas no tema. Pelo mesmo motivo Aline, Alberto e Kailan se revezavam como figurantes que apareciam uma vez ou outra.
       No final do ensaio cada um foi para uma direção e só Helena foi direto para casa. Ultimamente os dias tinham um peso maior, a gravidade parecia ter sido alterada. Helena morava com a irmã e gostava disso por serem parecidas, entretanto Cecília não se via espelhada em nada na irmã desde que aparecera em casa falando que finalmente ia poder ser vilã; ela que ninguém tinha medo de magoar por parecer tão frágil e boa.
      Naquela noite o vento estava cansado de indicar a direção e não ser notado, portanto estava parado, ao contrário dos pensamentos de Helena que observava a rua da janela do quarto.  Cecília surgiu na porta e enquanto Helena se virava dizia:
_Quero minha irmã de volta.
_Do que está falando? Eu estou aqui – falou Helena sem emoção.
_Não, não está. Minha irmã não era imbecil, não preferia fitar ruas vazias ao invés de passar horas se entretendo com futilidades na TV.
_Uma hora todo mundo cansa de ser aquele que se entretém com futilidades. Espero ser mais que isso.
_E você acha que eu não? Só porque não estou de mal com o mundo não significa que eu ache que tudo está no lugar.
_Ótimo, então vamos destruir esse mundo e ficarmos a sós com nossas futilidades.
       Por mais que Cecília quisesse não encontrava palavras para vencer o frio que o que ouvira trouxe. Então, escolheu a opção mais fácil; disse que ia dormir. Helena, que já tinha se virado para a janela, indagava se aquela era a melhor hora para pular. Como tudo em sua vida, deixou para depois. Apesar da indiferença, Helena ainda tinha um coração que pulsava e a lembrava que Cecília dependia daquilo para sobreviver pois era menor de idade e órfã. As 2 irmãs não sabiam o que era ter família desde a infância e perder Helena seria como perder o fulcro de sua existência. Helena limitou-se a olhar o céu e desejar que o dia de amanhã pudesse trazer alguma paz mas, desejava como quem espera o cessar da guerra no Iraque.
       O dia seguinte sucedeu com a naturalidade de sempre e o que entediava Helena e Kailan, fazia Alberto e Aline sorrirem por saber que estava tudo certo para a apresentação. Todos sabiam suas falas de cor e já lembravam seres de outrora que foram apanhados pelas surpresas inevitáveis da vida. Talvez não fosse coincidência.
_Minha cabeça está doendo, quero ir logo para casa – disse Helena rompendo o ruído de risadas.
_Você não parece animada para a apresentação de amanhã. Imagino que nem cogita a ideia de repeti-la depois – disse Alberto um tanto chateado.
_Ainda nem pensei nisso mas provavelmente não. Acho que não vou voltar ao teatro.
       Aline sentiu-se ainda mais confusa com o que ouvira. Comparara Helena com alguém que tem medo de arriscar e agora ela a surpreendia mudando totalmente de rumo. Então foi sua vez de falar.
_De certo há alguma coisa muito errada com você, Helena mas, por favor, não desanime quem está feliz com essa conquista.
_Ela não é a única – interferiu Kailan surgindo das sombras do lado direito do palco.
_Você me assustou – gritou Aline. – E o que está dizendo, vai abandonar sua própria ideia?
_A peça vai ser apresentada. Vamos deixar o futuro para – Kailan sentou-se numa das cadeiras da plateia e completou: o futuro.
_Isso mesmo. Amanhã, depois de sabermos o que o público achou, pensamos. Apesar que não faz a mínima diferença para mim mas é evidente que para você e Alberto faz – dizendo isso Helena saiu rapidamente do teatro deixando Aline e Alberto se fitando confusamente e Kailan pensando que talvez tivesse pensado mal de Helena definindo-a para si mesmo como comum.

       Faltava 15 minutos para a entrada no palco e todos se achavam prontos, menos Helena.
_Eu não acredito que ela desistiu sem nem mesmo avisar – disse Alberto andando de um lado para outro.
_Parece que não era mesmo uma boa ideia essa história – e, deixando sua cabeça cair enquanto seus olhos fitavam o chão, concluiu: estavam certos.
_Ah, muito legal admitir isso agora mas é tarde demais. O tema foi escolhido e influenciou a sua mente e a da Helena que não sabem distinguir ficção de realidade – disse Aline claramente revoltada.
_Acontece que o tema e a história são fatos. Não se pode fugir dos fatos – insistiu Kailan.
_Qualquer coisa passa a ser fato depois que acontece, nem por isso todos os acontecimentos são compreensivos e dignos de atenção.
_A meu ver esse é sim um acontecimento compreensivo e casos assim sempre terão minha atenção.
_Você é louco! Não sei como aceitei fazer parte disso.
_Você pode fugir dessa peça e desse teatro para sempre ou pode ser Alice e superar seus próprios medos e confusões. O que me diz?
      Aline não esperava por aquilo mas sem pensar 2 vezes concordou. Faltavam 10 minutos e ela estava mais confiante que antes. Quando as cortinas abriram entrou e discursou o que Helena deveria dizer e que ela acabou decorando de tanto ouvir. Eram versos curtos que Kailan pensava traduzir a alma de Alice:
_O que é a vida senão momentos? Se contar a vocês minha vida vocês me dirão que não há motivo para que ela esteja sendo revivida por jovens sonhadores e dirão que estou fazendo com que percam tempo. Então, por que mesmo assim irão revivê-la? Por causa de um momento. Porque segundos podem ser mais valiosos, decisivos e surpreendentes que uma vida inteira.
      A partir de agora a plateia barulhenta adquiria um silêncio fúnebre que adaptava-se à trama assim como as estrelas se adaptam ao céu. Os 3 jovens tiveram que fazer muito esforço para contar aquela história sem Helena. Alice passou a ter 2 filhos do sexo masculino mas a essência foi preservada e, no fim, quando a cortina se fechou encerrando consigo a cena de morte e horror que estava no palco, algo mais que orgulho apareceu nos corações dos jovens. Assim que Alberto e Kailan se levantaram das camas e foram cumprimentar Aline, foram tomados pelo medo. A mulher que viam em sua frente não estava com aquele aspecto triste e doente por causa da maquiagem e do papel que interpretara, era um aspecto indiscutivelmente real e, parecia que tinha noção disso pois quebrou o silêncio dizendo:
_O que foi? Esperavam mesmo que teriam sucesso se não tivessem uma estrela no elenco?
       Alberto e Kailan estavam petrificados e não ousam dizer nada, até porque o susto tinha roubado seus pensamentos deixando-os a sós com a razão de seu pavor.
_Me digam, quem interpretaria melhor meu papel que eu mesma?
       As últimas palavras tiveram um efeito aterrador no ambiente. Era Alice que estava diante deles. Mesmo embevecidos eles obtiveram a certeza quando a mulher tirou o sobretudo – que nem mesmo fazia parte da peça e que “Aline” quis vestir – e expôs outras partes de sua pele onde toda ela era palidez e frieza. Esse último aspecto pôde ser constatado quando Alice tocou calmamente o pescoço de Alberto com a ponta dos dedos e em seguida colocou a outra mão em sua nuca e fez um movimento que parecia ter sido ensaiado mil vezes a mais que aquela peça, quebrando assim o que tocou. Kailan não podia acreditar no que via, se beliscou e sem obter sucesso para acordar do que desejava ser um pesadelo, saiu correndo para cair diante da porta do camarim reserva, que nunca precisou ser usado. E agora sua porta estava escancarada, denunciando a entrada de alguém. Kailan não tinha tempo para pensar e, sabendo disso, entrou no camarim e trancou a porta. Ao acender a luz, respirou fundo, fechou os olhos e quando abriu, olhou para o chão e viu um líquido espesso e vermelho escorrendo. Hesitante virou-se para trás e mais uma vez beliscou-se pois o que via era 2 corpos; o de Helena e o da verdadeira Aline. Então Alice apareceu tornando o momento mais extraordinário.
_Surpreso? Eu pensava que você era o único que me compreendia. Parece que a tolice humana ultrapassa até a própria morte e a esperança não morre nunca, impregna nossa visão de realidade.
_Se está morta como pode estar aqui?
_Estando. Assim como estaria se não tivesse espírito pois em cada palavra que ouvia da boca da suposta Alice eu reconhecia a mim mesma mais do que me olhando no espelho. Quando assistia vocês ensaiarem e quando ouvia minhas palavras finais, parecia que eu estava de volta à vida e somente por isso permiti que chegassem ao final.
_Então para quê nos eliminar depois? Eu estava tentando mostrar ao mundo que existem mais pessoas inconformadas do que supomos, que a linha que seguimos pode e deve ser mudada, que negando seus motivos estaríamos apenas negando o inevitável.
       Alice pensou que não ouviria mais a voz do jovem mas sabia que todo ser humano tem necessidade de ter suas perguntas respondidas então falou:
_Porque Alberto e Aline eram incapazes de absorver os detalhes dos momentos de minha vida que passei chorando quando estava sozinha e me torturando na companhia de meus familiares.
_E Helena? O que fez com ela?
_Eu apareci para ela em seu quarto há algumas noites. Lhe contei o segredo que morri guardando e pedi que ela mudasse o final da peça. Ela não aceitou, voltou a dormir e no dia seguinte disse para si mesma que tinha sido um sonho. Entendi então que ela era como os outros; incapaz de entender o que não fizesse parte de seu mundinho de vidro.
_Então decidiu que devia matar a todos que eram incapazes e me deixar vivo porque achava que eu te compreendia?
_Quem disse que vou te deixar vivo?
_O que quer de mim então?
_Quero que me escute! Uma vez na minha vida eu quero expor meus sentimentos e minha opinião sem ter que colocar a vida dos outros a frente da minha. Eu não tenho mais vida, não tenho como voltar atrás, então não me importo se outros sofrerão por minha causa. Se você me ouvir e eu não ouvir o que tanto odeio irei embora e não voltarei a incomodar este plano astral mas, se eu descobrir que ninguém nunca me entenderá, que o que fiz não te perdão e que matei meus anjinhos porque sou egoísta, o mundo sofrerá um pouco mais.
_Então o motivo que escrevi não era real, você não fez o que fez porque estava cansada da vida  e da sua rotina, porque queria algo novo mas não queria abandonar quem amava então resolveu que os tiraria deste lugar cruel. Você teve outro motivo e se é outro, como espera que eu te compreenda?
_Você tem uma visão muito romântica da vida, acredita que os outros é que são bobos por seguirem regras e não ousarem mudar mas, saiba que bobos fomos nós que ousamos.
_Por que diz isso?
_Porque quem sofre com toda a injustiça e desordem do mundo é quem não pode fazer parte dele; quem pode vive bem e feliz mesmo que hipocritamente. Se fosse mais inteligente, Kailan não teria que discutir com um fantasma; sua verdade irrefutável estamparia revistas, jornais e outdoors e todos passariam a mudar tornando o que você acha incomum comum e aí você se veria de novo preso à vontade de mudar quando não há mais o que ser mudado e estaria se perguntando onde foi que errou, o que deixou escapar; como eu me perguntei quando descobri que meu marido se relacionava com minha filha. E em meio a sua vidinha mesquinha igual a qualquer outra você ia entender que melhor que lutar contra o mal é aceitá-lo e fazer dele seu melhor amigo.
_Abraçar o diabo quando se está no inferno?
_Exatamente. Poderia me dar sua compreensão para que eu a leve comigo?
_Sim. Poderia. De agora em diante é o mal que estará sempre presente em cada estória encenada por mim. Vou fazer com que entendam, com que tirem uma lição a partir da história que me contou. Vou reescrevê-la.
Alice riu e por um momento parecia que aquele ser tão destituído de humanidade era o ser mais humano que Kailan já viu. Então suas palavras seguintes fizeram voltar para Kailan o medo que tinha passado com a elucidação.
_E quem disse que ficará vivo?
       Antes que Kailan pudesse responder, Alice já estava com as mãos na massa, ou melhor, em seu pescoço e, a morte que estava em todos os lugares espreitou furtivamente seus novos presentes que se estendiam no chão. Alice não podia seguir em paz, Kailan não tinha entendido que ela se matou para não revelar gratuitamente a todos o que ela descobrira com tanta dor. Ia voltar, sua vida na Terra tinha sido limitada por sua bondade e indulgência e hoje em dia sua vontade de vingança se confundia com o desejo de paz, afinal mesmo morta era humana e como qualquer outra pessoa ela tinha essa sede que nenhuma água e nem mesmo a própria morte cessa. Mas, hoje ela ia descansar. Tinha a eternidade para isso, é claro, mas ela sempre deixou tudo para depois estando viva. Agora que não fazia diferença agir ou se retirar, a preferência era se poupar.