31.10.16

Desejo maldito

     Um dia normal do cotidiano em que você sai com os amigos e riem juntos está por vir. Theo fazia essa atividade sempre e já quase podia adivinhar as ações e pensamentos dos amigos. O encontro foi totalmente previsível a não ser pelo seu fim. Quando todos se retiravam do bar, Milena o puxou pelo braço e disse q tinha algo urgente para contar, então se sentaram novamente na mesa e pediram mais uma cerveja. Theo tinha 25 anos e Milena 21. Era difícil dizer qual era mais maduro. Creio que Theo vivia num mundo e Milena noutro; ambos viviam distantes como que em outra dimensão. De repente a voz de Milena afastou o pavor para em poucos segundos voltar a trazê-lo:
_Eu vou morrer daqui poucos dias.
_O quê? Não faz sentido.
    Milena olhou para o balcão e viu quantas outras pessoas estavam ali sentadas buscando um sentido.
_Talvez não tenha de ter. Estou muito doente e já faz tempo mas não consegui contar para ninguém.
_E por que está contando agora?
_Porque eu quero ajuda para realizar um último desejo.
_Qual?
_Não posso morrer sem te contar que te amo e que essa foi mais uma das coisas que não tive coragem de dizer. Eu passei a minha vida sendo covarde; me sentava aqui e bebia como se as coisas ficassem melhores mas é óbvio que não estavam. Tudo piorava e eu só escondia. Agora me resta pouco tempo para viver o que eu nunca vivi. Quero você.
     Theo sem palavras se levantou e disse que precisava ir embora, que conversariam depois. Foi embora e deixou Milena petrificada, melancólica, atraindo olhares de pena.
     O depois não chegou pois quando Theo soube de Milena ela já estava num caixão sendo velada. Nem ela sabia o quanto toda mágoa lhe corroeu seu curto tempo de vida. Todos os seus amigos estavam presentes em sua despedida do nosso meio. Ou não. Enfim, Theo não comentou o pedido de Milena e se consolaram juntos.
    Em casa, horas depois de um enterro chuvoso, Theo está em sua cama. Um barulho chama sua atenção. Parece que alguém está batendo na porta. Ele não se levanta, prefere aguardar a pessoa desistir mas, 15 minutos depois, quando ele já estava dormindo, ele é acordado pelo mesmo barulho mas dessa vez na janela da sala. Ele desce as escadas e olha para a janela. Por um momento o mundo gira, você percebe e é aí que nada faz sentido. Do lado de fora Milena com seu aspecto cadavérico segura um cartaz que diz "Você será meu". Theo se recupera e sobe as escadas se trancando em seu quarto e entrando numa parte mais funda do guarda-roupa prendendo a respiração. O que ele não sabe é que Milena ouve seus pensamentos e está rindo das suas preces mentais.
   Ela gasta 3 minutos e meio para chegar até a porta do guarda-roupa e abri-la. Ela sorri e Theo grita. Em meio ao desespero ele consegue gritar: _Eu te quero.
  Milena fica séria. Uma seriedade quase encantadora se ela não estivesse naquele estado.
_Eu te quero - Theo repete. - Eu ia te contar hoje quando soube que tinha morrido. Me desculpe.
_Então me beija.
  Theo beijou Milena fazendo um esforço enorme para não ter que usar a língua mas Milena tentava lhe agarrar com força, Theo puxou um cabide e habilmente o desdobrou e enfiou em Milena que sumiu. Ele sabia que ela podia voltar então fugiu da casa. Theo nunca mais voltou lá. Apesar de estar na casa do irmão, ele não estava seguro. Não importava a companhia nem lugar; Milena estava sempre lá. No fundo do espelho enquanto ele escovava os dentes, ao lado do criado-mudo quando ia se deitar, nos seus sonhos estragando o fim de belas fantasias... Aqueles olhos grandes e negros que quase expulsava seu aspecto de morta. Milena esperava o beijo perfeito que não recebeu e Theo estava perturbado demais para se lembrar e distante demais para ouvi-la.