31.10.16

Olhos de tinta

Eu estava escrevendo enquanto a chuva caía, portanto não vi a água, mas ouvi seu som.
Estava debruçada sobre uma folha de papel em branco e quando o sol brilhou novamente somente o silêncio me alertou.
No entanto nem chuva nem sol para fora me arrastou.
Dentro de casa, dentro de mim, eu percebo mais coisas que quem escolheu sair.
Porque a visão não permite a sensação da nostalgia da chuva, muito menos a escuridão oculta atrás dos raios solares.
É aqui dentro que eu entendo e me envolvo na real forma de tudo o que se torna meus muitos lares.
Através das palavras eu vejo que meu olhar é muito incompleto.
Nas linhas percebo seu significado incerto.
De certo, enquanto escrevia perdi mais um episódio da vida.
Porém percebia detalhes nas sombras e os escrevia.
Qualquer coisa sem importância se torna digna de admiração quando bem transcrita em versos.
Mas nenhuma paisagem, nenhum espetáculo é maior e melhor que a eternidade dos textos.
Posso ter perdido a beleza temporária de um dia alegre mas, minhas palavras estarão aqui para sempre.
Afinal quem escreve se imortaliza.
Algum dia, de repente, alguém vai preferir relembrar um momento que você exprimiu num poema ao invés de reviver um dia por causa da rotina; o seu velho dilema.