2.11.16

Anjos caídos

"Numa manhã chuvosa eu pude ver as lágrimas daqueles que sendo invisíveis, pouco nos importam e muito nos fazem falta."

Você vive o dia-a-dia como quem lê um livro; como se não fosse o próprio protagonista. Você acha que sente, acha que chora, que ri, que namora, mas quem tem sensações completas é aquele que lê a sua história. Por incrível que pareça, tudo está quase dormente. A rotina nos deixa entretidos no caos nos livrando da maior parte do peso de nossos sentimentos. Portanto se você custa suportar suas dores, imagina se as sentisse totalmente.
Longe mas não tanto, eles nos observam sendo obrigados pelo criador a se calarem e assistirem o fim de sua raça como se isso fosse evitar nosso inevitável fim. Eles se sacrificam sem escolha pelos nossos mais fúteis sonhos. A esperança rege a mente do que há por trás de todo o universo, na mente do que ser mais poderoso "conhecido". Eu sei. A história é confusa mas, acredite; não é nem a metade.
"Durma com os anjos" eu ouvi minha mãe dizer por mais ou menos uma década do que chamam de vida. E ficava pensando em seres luminosos ao lado da cama. Dizia pra mim mesmo que só não os via porque ainda não havia chegado a hora certa. No entanto, eu sempre os sentia. A vida passou rápido e o vento em uma tarde qualquer me trouxe uma pena. Era branquíssima e bela. Guardei. Em uma outra tarde de maio eu as vi de novo. Dessa vez, pude ver de onde vinham. Era do travesseiro que elas saíam em liberdade quando estavam no meio de uma guerra entre primos. Depois dessa tarde, minha inocência foi levada pelas verdades de uma tarde cruel. À noite, sozinho, estava arrumando a bagunça do quarto e resolvi tirar todas as penas do travesseiro. Foi aí que o branco que emitia beleza ecoou horror. Eu vi em uma dessas belas obras de arte um pouco de sangue escarlate. Gritei e minha mãe veio correndo ver o que era. Lhe contei o motivo e ela apenas me devolveu uma expressão vazia que mais transmitiam dúvidas que certezas.
Mais 10 anos se passaram e todas as minhas crenças pareciam ter sido despedaçadas com o barulho do tempo passando. Sim, o tempo passa voando e, assim como o vento, tem seu som imponente e ao mesmo tempo discreto. Em um daqueles momentos em que não se tem nada pra fazer fui à biblioteca procurar espairecer. Não sei por que mas um livro da capa branca foi o escolhido para saciar a ansiedade decorrente do tédio. Foi aí que uma frase de cuidado se transformou em ironia de caráter duvidoso. "Durma com os anjos"...
"A cada 7 dias de seu tempo exclusivo, Ele os levava para seu templo e em cima do altar, de costas, tinham somente seu corpo queimado com o perfume de cravos e suas cinzas viravam as pétalas do tapete que seguia até a grandiosa entrada. As penas de suas irreverentes asas ficavam caídas no chão de mármore celestial e eram usadas para o alento humano propiciando sonhos e, assim, alimento para a esperança de um mundo amaldiçoado." As palavras "dor" e "sonhos" bailavam na minha mente de forma absurda como o efeito de um alucinógeno. Eu me recusava a existir. Dei valor à palavras que não sei quem tinha escrito sem cobrar razões. Foi uma verdade implacável que apesar de despertar a negação quando eu não queria acreditar em nada, renovou minha fé de forma gritante.
Hoje a minha fé é baseada em murmúrios de espíritos dos anjos mais fortes que prevaleceram no além guiados pela essência de suas penas que, debaixo da minha cabeça também guiava meus frágeis pesadelos.