2.11.16

Ir[realidades]

O vento que me trouxe a lembrança do céu nebuloso que constitui o teto de minha existência - onde no meio em que vivo é primavera mas onde minha mente habita sempre foi outono - trouxe também cinzas de folhas queimadas por aí, que ficaram no chão, onde agora caminho, entre árvores cujas folhas não caem pois não existem. Esses galhos à mostra sempre foram o reflexo do que eu nunca fui e nunca esperei ser. Talvez por isso os venero; insinuando que as muitas personalidades que uso são folhas que mesmo no eterno outono de minha alma, nunca virarão cinzas pelas quais passarei por cima, pois o passado está sempre presente. Em cada atuação um futuro, mas jamais um novo recomeço. E sempre foi a mesma boca que beijou a face da solidão; os mesmos olhos já tinham visto e sabiam de cor o caminho do abandono e, os mesmos ouvidos já tinham ouvido a ensurdecedora ilusão. Talvez as mesmas mãos tocaram a realidade no meu universo paralelo onde as verdades se solidificam para só assim não serem confundidas com as mentiras que circulam no ar que, aliás, tem o cheiro de caos que o mesmo nariz sentiu em cada uma das minhas supostas histórias de vida.
Por mais que eu mude, ao meu redor tudo ainda é frio e só por dentro o mundo parece ser irreverente. Afinal, a atmosfera que cerca o planeta é apenas o barco que me leva daqui quando a noite chega. E ninguém pode dizer o que é irreal quando sentimentos nunca puderam ser presos em uma caixa como a de Pandora. Você já tocou o amor? Já abraçou a tristeza? Pois posso garantir que sim. No entanto, aprisionar o invisível não prova nada. E daqui deste barco, acima das fascinações fúteis da Terra, navegando pelo mar onde as estrelas são peixes e me parecem mais reais que muita gente, eu sei do que estou falando.