2.11.16

O fim

Estou quieta e escondida atrás da fumaça do milésimo cigarro da madrugada. A ansiedade me abraçou e me ofereceu colo quando ninguém olhou para trás; quando no espelho nem reflexo eu tinha mais. Eu me despedacei em tantos pedaços que me tornei irreconhecível. A dor foi a linha e a angústia, a agulha que costurou e ligou parte por parte. O frio era um amigo; diferente do calor que me lembrava multidão, que consequentemente me lembrava todos aqueles que me abandonaram. O vazio era minha paz - já que indicava silêncio - então nunca o preenchi com sonhos, apenas sossego. Preferi o escuro e o afastamento por orgulho, como quem recusa teto do governo quando ocorre um desabamento. Eu nunca disse "obrigada" pois ninguém nunca fez nada por mim. Sim, eu recusei ajuda mas não fui eu quem já deixou a recusa gravada em mim. Eu olho para trás e é lá que vejo um futuro: no nada que existia antes deu existir. E aí, feliz estando próxima do fim em minhas ilusórias lembranças, eu entendo melhor que todos como viver doi. Mesmo tendo passado tanto tempo tendo a dor como qualquer outro órgão, eu esperei por um transplante e me entorpeci de solidão. Eu fecho os olhos e é esse destino que vejo. Pensando em quanto tempo falta para que o órgão comece a adoecer.