12.4.17

Experimento fracassado

        Eu sou uma droga. Parece que usei tantas que me tornei uma. Eu era usado também pelos sonhos dos outros; que refletem no mundo e meu protetor solar não era foda o bastante para bloquear. Eu me escondia no escuro mas também tinha a porra de um reflexo. Ele falava, andava, escutava e entendia melhor que eu. Então, ele fazia tudo isso e ainda conseguia dizer para as pessoas que era eu. Eu o invejava mas, quando estava sóbrio eu o odiava.
Hoje fiz de tudo para fugir do meu reflexo. Ele me procurou até achar. Eu não conseguia me desfazer dele porque ele sempre deixava um bilhete embaixo da porta dizendo “Você não pode fazer isso. Está louco!” e coisas do tipo. Ironicamente nunca estive mais lúcido. Eu quis matá-lo mais do que qualquer outra vez; quis dissecá-lo e entender o que o fazia agir daquela maneira; quis justificar a minha falta de atitude, minha passividade por tantos anos. Foi quando percebi que também era culpado. As atitudes ao mesmo tempo notáveis e repulsivas daquele reflexo era a consequência de um erro: eu.
Eu não podia deixar meu reflexo andando por aí, mas não significava que deveria me deixar fazer o mesmo. Eu deveria partir, pôr um fim em tudo.  No entanto, eu ainda tinha a sede de ver o reflexo se desfazer e sua existência sumir. Pensando nisso, aproveitei a calma de deixar tudo para trás que nunca havia sentido e caminhei até o lago que era mais abandonado que meus princípios, perto de casa. Ao lado havia um jardim sem flores e um pequeno portão enferrujado com grades em forma de lança. Fiquei de costas para esse portão a uma distância de mais ou menos meio metro e fechei os olhos. Nunca consegui meditar porque nunca me contentei, mas naquele momento que nada mais importava eu me senti leve instantaneamente e comecei a pensar nos ensinamentos sobre viagem astral que li e ouvi por aí. Em alguns segundos ou minutos, não sei, estava de frente para mim mesma e, assim que me dei conta que tinha conseguido o que queria, pude me ver caindo sobre 2 lanças próximas que atravessaram meu peito e fizeram da minha boca um chafariz de sangue. Eu sorri e pensei que minha vida também se dissiparia em menos de um segundo. Mas ainda estou aqui e o que ouvi ou li não foi o bastante para me mostrar a saída.