28.8.17

Negócios

   A primeira vez que a vi foi como a posterior e a posterior e a posterior... Ela estava linda e sorria como se tivesse ganhado na loteria. E quem podia dizer que não tinha ganhado com aquela beleza estonteante? Seus cabelos negros e longos contrastavam com a pele clara e o corpo pequeno e delicado. Ela vendia flores e eu sabia que era seu perfume que acompanhava os clientes que saíam satisfeitos. Eu não sei se dizer se havia muitas variedades de espécies mesmo depois de ter passado por ali quase 365 dias seguidos. Eu não via nada mais interessante que ela. Assim se sucedeu nas primeiras semanas. Depois, eu não enxergava nada interessante em lugar algum. Nem naquelas mexas ruivas naturais que tinha na gaveta do quarto. Então, comecei a pagar pessoas para comprar uma flor qualquer e aproveitar para fazer uma pergunta pessoal. Após 11 tentativas e um engraçadinho que aproveitou para fazer perguntas por sua própria conta e sair com ela - e talvez deva incluir aqui sua morte pois não pude suportar a audácia do imbecil - finalmente descobri seu nome: Lilian e seu endereço.
   No período em que ela trabalhava eu ia para sua casa. No primeiro dia descobri que ela morava apenas com uma senhora de idade que ficava sempre muito quieta e mal se mexia. Estava quase entrando na casa pela janela quando a vi se levantar debilmente e seguir para um cômodo que devia ser o banheiro. Então, fui embora e resolvi planejar tudo do lado de fora antes de passar para o lado de dentro. Foram dias intensos e as noites mais ainda pois seus lábios sempre me tocavam em meus sonhos. 1 ano que passou como uma era. Daria tempo para causar uma guerra e foi mais ou menos isso que tanta paixão causou.
   Era um entardecer bonito e com certeza Lilian devia estar achando-o romântico pois sorria sonhadoramente. Eu achei que era o momento certo. Nosso primeiro encontro - formal - seria perfeito. Ela caminhava pela rua que passava atrás da floricultura. Eu já tinha me certificado de que àquela hora estaria deserta. Então coloquei um saco feito de cetim em sua cabeça e enquanto ela se debatia um pouco eu tapava sua boca com uma das mãos para que seus gritos não fossem ouvidos. Abri o porta-malas e peguei a seringa com um sedativo que ali tinha deixado e apliquei em Lilian. Ela adormeceu e eu a acomodei cuidadosamente. Ao sair vi que ninguém passava. Fui direto para sua casa. Mais cedo tinha passado por lá e sedado a idosa. Tomei o cuidado de amordaçá-la e prendê-la no cômodo embaixo da escada que eu havia pensado ser o banheiro mas acabei descobrindo que era onde ela guardava revistas com homens seminus. Deve ter uma mente doente e perversa a pobre idosa. Não vou pecar em deixá-la ali enquanto eu estiver com Lilian.
    Ao chegar, notei que os vizinhos da direita saíam e que os da esquerda ouviam algum show em DVD numa altura absurda. Às vezes a falta de respeito das pessoas é uma benção, devo confessar. Não tinha mais nenhum vizinho perto o bastante para causar problemas então abri o porta-malas e tirei Lilian de lá. Passei pela porta que eu havia deixado destrancada ao passar pela janela dos fundos que agora ao invés daquele vidro horroroso de igreja tinha uma madeira no lugar. Subi a escada com ela em meus braços e imaginava que nossa lua de mel pudesse ser assim, se fosse ali. E falo até do saco em sua cabeça. Afinal era cetim. Então subi e coloquei ela na cama que imaginava que era dela e sentei na cadeira ao lado até que ela acordasse.
   Aquele foi um momento mágico. Exatamente como ver uma lagarta se transformar em borboleta abandonando seu casulo. Ela levou meio segundo para querer descobrir a cabeça então me olhou, eu sorri e ela gritou. Imediatamente a abracei enquanto tapava sua boca. Disse a ela que estava tudo bem, se ela não gritasse nem se debatesse ela teria o melhor cuidado que alguém poderia ter então ela balançou afirmativamente a cabeça e eu a soltei. Ela perguntou por sua avó. Eu disse que ela estava em segurança no andar de baixo. Ela disse que precisava dar remédios a ela e eu disse que já tinha cuidado disso. Ela pareceu surpresa e perguntou por que eu estava fazendo aquilo com ela. Eu disse que ela passava tempo demais cuidando de flores e da felicidade dos outros e que ela merecia o mesmo. Ela disse que tinha namorado e eu disse que sabia que não era verdade. Então ela começou a chorar e eu perguntei se ela queria alguma coisa ao que ela respondeu "minha liberdade". Me magoei um pouco com tais palavras ingratas mas disse a ela que era natural se assustar com coisas que chegam sem avisar. Apliquei outra dose de sedativo com alguma dificuldade porque ela se debateu muito e desci para o andar de baixo para me recuperar.
   Acabei dormindo. Quando acordei corri para o quarto de Lilian. Para minha sorte ela só acordou porque fiz muito barulho ao abrir a porta com força. Ela ameaçou gritar mas eu fui mas rápido e a segurei explicando que eu iria mantê-la sedada 24 horas por dia se ela não colaborasse. Ela foi compreensiva e pudemos conversar. Contei-lhe todos os sonhos que tive com ela, falei das vezes que pedi para alguém comprar flores em meu lugar para saber a seu respeito e contei também que havia guardado todas elas no porão da minha casa para dar a ela de presente mas elas haviam morrido. Ela ouvia tudo em silêncio e mesmo quando eu perguntava "o que você acha?" ou "está me ouvindo?" ela mantinha sua postura de tristeza. Estava começando a achar que sequestrei a pessoa errada. Não via sinal de sua felicidade em nenhuma parte dela, em alguns momentos quase a achava feia. Em 3 dias pude permitir que ela circulasse pela casa e usasse os cômodos de sua preferência. Ela não permitia que eu a alimentasse e estava emagrecendo. Foi melhor assim mas é claro que usei a nobre ideia de colocar madeira em todas as janelas. As portas tinham várias trancas e as chaves foram escondidas por mim. Ela pediu para libertar a avó e assim o fiz mas a velha já não respirava mais e até começava a cheirar mal. Pensei não ser possível ver Lilian mais triste mas me enganei. Ela entrou em desespero e parou até de me olhar. Ela não comia, não tomava banho e não saía da cama que já se encontrava imunda devido sua infantilidade. Eu pedi para que ela ao menos mudasse de quarto e ela não quis então o fiz a força. No dia seguinte estava tudo insuportavelmente sujo de novo. Ela estava anoréxica e eu não sonhava mais com seus beijos e eu agradecia pois agora isso seria pesadelo.
   Comecei a me perguntar se ela era tão importante e vi que aquela relação estava apenas me desgastando e acabando com o resto de esperança que haviam sobrado depois de tudo que vivi. Resolvi que deveria acabar com aquilo. Me sentei ao seu lado na cama. Ela abraçava as pernas e fitava o chão. Tentei um diálogo de todas as formas. Tentei todos os assuntos e ela continuava introspectiva. Foi então que me movi para trás dela e peguei seus cabelos que se mantiveram bonitos. Senti que ainda estavam macios e o dividi em duas mexas muito grossas, enrolando-as 3 vezes em seu pescoço para se encontrar em suas costas novamente. Então puxei e ela finalmente se moveu. No entanto era tarde. Mesmo se ela pedisse desculpas eu não poderia voltar atrás. Em poucos segundos ela estava roxa e ao invés de afrouxar os fios em minha mão, eu apenas apertava mais. Juro que por um instante eu vi seus olhos terem vida outra vez e aí se acabou por completo. Eram apenas buracos preenchidos com vazio. Eu levei muitas horas para limpar a casa toda e não deixar nenhum vestígio da minha presença. Fui para minha casa e ao encontrar minha esposa me lembrei que as pessoas nem sempre nos causam problemas. Expliquei que minha viagem de negócios tinha sido um fracasso e ela me beijou e disse que era assim mesmo; uma hora a gente ganha mas na outra a gente perde.