15.3.18

Caso de família

   Eu estava com minha família na fazenda. Havia uma casa grande onde ficaram meus pais e meus avós. Resolvi dormir na cabana que ficava há uns 10 metros de distância. Minha prima queria ficar comigo mas não permitiram e ela ficou na casa. A noite foi tranquila como todas as outras em que estive lá. Na manhã seguinte, ela foi me ver e estávamos conversando quando de repente ela olha para o chão e vê um corpo. Um homem aparentemente morto. Estava imóvel, com os olhos fechados e parecia estar sangrando.  Gritamos e meu pai apareceu com um facão. De repente o corpo tinha sumido. Meu pai pede para que esperemos na casa com os outros. Estávamos indo quando vi o cara que estava morto correr para atacá-lo, então achei outro facão e fui para cima dele mas já era tarde, ele já tinha acertado meu pai. Então acertei o assassino porque era a única coisa que passou pela minha cabeça ao ver que ele tinha matado quem eu mais amava. Ele caiu no cômodo no qual era para estar quando o vimos. Olhei para mim suja de sangue e comecei a chorar. Só então minha ficha caiu. Todos os outros familiares estavam na porta observando.

   Assim se encerra o depoimento que precisou ser repetido várias vezes. Graças a ele fui liberada como a moça que irá passar seus dias relutante com a vida porque não pôde salvar o pai e ainda assistiu ele morrer. Mas ainda sinto meus braços doerem por ter feito um esforço maior que meu corpo frágil supostamente suporta. Todas as noites sonho com a verdade. Vou poder escondê-la dos outros para sempre mas de mim, não tem como.
Jamais poderei esquecer a dor que me fez matar aqueles idiotas. O que realmente aconteceu foi que quis dormir na cabana para me encontrar com Henrique. Ele era casado e por isso ninguém sabia que tínhamos um relacionamento. Meu pai descobriu 2 dias antes de irmos para a fazenda e estava ameaçando nos expor se eu não deixasse de vê-lo. Pedi para que ele me desse a chance de conversar com ele e terminar tudo enquanto eu estivesse naquela cabana. Bem, eu terminei. Nunca mais poderemos nos ver novamente. Mas não o matei por isso. Enquanto conversávamos ele me disse que já estava na hora de dar um fim em tudo aquilo porque sua esposa suspeitava que ele tivesse um caso e ele não queria perdê-la. No entanto não sabia como me dizer e, já que agora era um problema também para mim, esse era o momento ideal. Eu disse a ele que tudo bem, que era o melhor a se fazer mesmo. E pedi que ele dormisse ali e fosse embora antes que minha família acordasse. Ele quis dormir no chão e eu quase o agradeci por isso. No meio da madrugada, enquanto apreciava seu rosto que parecia ter tanta paz, fiz o favor de mantê-lo calmo eternamente. Com um facão que eu segurei com força com as 2 mãos golpeei seu peito. Ele acordou engasgado pelo sangue, tentou puxar o ar por menos de 1 minuto e logo morreu. Então fui dormir.
   De manhã quando minha prima foi me acordar ela viu o corpo e quando percebi que ela ia gritar fiz o mesmo. Sabia que meu pai seria o primeiro a aparecer porque ele sempre acordava antes de todo mundo. Então disse que o corpo tinha sumido e minha prima não olhou para constatar, apenas correu enquanto meu pai me mandava correr também. Mas eu peguei o facão que havia jogado ao lado da cabana e corri ao seu encontro para golpeá-lo. Ele estava em choque e foi fácil. Ele não gritou, só vi seus olhos arregalados me dizerem sem voz que aquilo era inacreditável. Bem, eu também não pude acreditar quando a pessoa que dizia me amar mais que tudo ameaçou me expor. Eu já tinha me livrado da causa mas sentia que ele não podia viver, ele iria me dedurar sobre o que eu tinha feito com Henrique e todos saberiam que eu o matei porque fui rejeitada. Eu não podia permitir. Antes que alguém aparecesse, gritei para demonstrar que meu pai tinha sido atingido e enfiei o facão no mesmo lugar que havia golpeado Henrique quando este se foi. Quando olhei para a porta e vi todos me encarando eu tive que parecer que sofria com a situação então dramaticamente olhei para mim e todo aquele sangue e comecei a chorar. Minha mãe me abraçou e olhou para o outro corpo que estava tão próximo mas que da porta era difícil enxergar porque a cama cobria a visão. Todos começaram a chorar quando perceberam que meu pai era esse corpo. Fomos para a casa principal e só saímos de lá quando a polícia chegou, fez um monte de perguntas e nos liberou. Após isso passei meses indo à delegacia para responder alguma dúvida ou brecha que havia ficado. Cheguei a ter audiências com um juíz mas, esse meu depoimento trágico juntamente com minhas lágrimas e o fato de ter perdido um pai que jamais veria minha formatura que era dali a 3 meses, o fizeram me absolver. Porém não estou absolvida de meus sonhos. Alguma coisa fiz de errado para eles não saírem de minha mente mas ainda não sei o quê.