6.3.18

Escuridão

   Quando a rotina impera tudo mostra ser seguro. Temos quase certeza de que nada vai dar errado. Nem parece que com tanta austeridade uma coisa simples poderia tirar tudo do lugar. A falta de energia, por exemplo, pode transformar vidas em caos.
   Era segunda-feira e os que tinham trabalho estavam nele e, os que por algum motivo estavam em casa, gostariam de ter a oportunidade de estar fora. A energia acabou às 18:33hs. A esperança forte da maioria os fizeram achar que voltaria logo mas, os mais pessimistas já sabiam que iam passar boa parte da noite na escuridão. E, em meio a tantas pessoas comuns que reclamavam a luz de volta, existia alguém que se sentia confortável quando ninguém podia vê-lo. Ezequiel era seu nome. Essa pessoa que também tinha uma rotina quase idêntica a de todos, nesse dia resolveu que não iria trabalhar. O que ele fazia era lidar com marketing e propaganda e era muito desgastante exagerar nas qualidades e esconder os defeitos o tempo todo. Porém, o fato de sua vida também poder ser descrita dessa maneira fazia com que o trabalho fosse mais acolhedor. Hoje ele queria dar voz a seu outro eu. Não sabemos se deveríamos dar valor a tudo que se passa em nossas mentes mas esse cara iria descobrir.
   Ezequiel estava no sofá lendo quando a luz se foi. Não houve surpresa; sua luz interior já o havia deixado há muito tempo. O sol que apesar de já ter começado a se pôr emanava alguma claridade e ainda conseguia emitir a paz necessária para se dirigir a algum cômodo e procurar as velas ou lanternas que substituiriam as lâmpadas. Era como o oxigênio que por mais que em alguns momentos parecesse nos sufocar, emitia a ilusão de que algo viria a seguir para substituí-lo e continuarmos respirando. Ezequiel leu pelo tempo que 2 velas gastam para queimar. Enquanto o personagem estrangulava mulheres sua mente o lembrava que em seu íntimo essas mesmas atitudes habitavam seus sonhos. Foi então que lhe ocorreu que sempre há alguém que é obrigado a passar pela rua sozinho independente das circunstâncias. Pessoas voltavam do trabalho em horários variados e tinha também quem estudava à noite. Foi assim que ele percebeu que seus sonhos poderiam se tornar realidade no presente. Dessa vez, Ezequiel não gastou horas com entretenimento barato para se desfazer do que aparentava ser tão anormal para quem o rodeava. Pela primeira vez a vontade de manter as aparências para si mesmo foi vencida pelo desejo que ardia em sua alma. Ezequiel se apressou em retirar as cordas que sustentavam uma rede na área e o lençol escuro de sua cama. Colocou-os no carro e saiu, quase se esquecendo de fechar o portão tamanha era sua ambição de possuir uma vida além da sua, que não o satisfazia. Ezequiel desligou os faróis e perambulou pelas ruas desertas e escuras que faziam divisa com seu bairro. Enquanto esteve procurando uma vítima ele sentiu como se o dia fosse do caçador, como se fosse o seu dia. Aquela data teria mais ligações consigo que seu próprio aniversário pois essa era uma coisa que a vida o perguntou antes se ele queria fazer. Nunca havia sentido que tinha controle sobre o que acontecia e agora ele sentia que além de poder governar a si ele iria ter poder sobre quem quisesse.
   Após 20 minutos que se passaram devagar mas que Ezequiel soube saborear com calma, sem perder a paciência, ele avistou uma mulher loira de cabelos longos descendo de um ônibus. Ela estava com uma mochila, provavelmente voltava da faculdade ou coisa assim. Ele desligou o veículo há alguns metros antes que ela notasse sua presença, desceu do carro e abriu o porta-malas com cuidado. Quando ela passou por ele estava desesperada para chegar em casa após um dia cansativo e a escuridão que se estendia pelo bairro todo a fazia querer correr. Ezequiel se mantinha atrás do carro, ela olhou para o veículo e não viu ninguém mas resolveu andar mais rápido. Sem fazer barulho, Ezequiel se colocou atrás dela, cobriu sua boca e enquanto ela se debatia jogou-a no porta-malas. Usou uma parte do lençol para colocar dentro de sua boca e de uma forma bagunçada enrolou o restante em sua cabeça onde amarrou o tecido com uma das cordas transformando ele em um capuz. Foi bem difícil já que ele deveria ter amarrado suas mãos primeiro. Infelizmente esse pensamento só veio depois. Ela quase se desvencilhou dele até que finalmente ele conseguiu amarrar suas mãos. Fechou logo o porta-malas e entrou no carro. Ele começou a pensar onde seria melhor dar início à sua diversão e concluiu que voltar para sua casa seria mais inteligente que deixar pessoas verem seu veículo circulando em algum local iluminado. Quando chegou em sua residência não tinha ninguém na rua. Ele entrou sem que fosse visto. Abriu a porta da sala e começou a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer primeiro. Então, ao se sentar ele teve a ideia que o melhor era amarrá-la a uma cadeira. Procurou mais uma corda pela casa pra poder amarrar suas pernas. Somente depois de quase 15 minutos ele encontrou. Então respirando euforicamente tirou a mulher do porta-malas. Agora ela não se debatia mais. Estar quase impossibilitada de respirar a fez desmaiar. Ao notar isso, Ezequiel se permitiu um sorriso. Foi fácil amarrá-la à cadeira e ele ainda pôde retirar o capuz improvisado e colocar uma meia ao invés do lençol na boca da moça, depois ele apenas cobriu a boca dela com fita adesiva que não tinha pensado em levar para seu passeio. Agora parecia que tudo estava muito mais claro apesar da luz da vela que acendeu estar se contorcendo como se soubesse o que se sucederia e não quisesse fazer parte daquilo. Ezequiel se sentou no chão em frente à moça e esperou que ela acordasse. Não demorou muito. Ele degustou cada instante como se fosse um vinho caro e assim que seus olhos se abriram parecia que uma nova vida se iniciava. Ele era a borboleta saindo do casulo. E aquela mulher que assim que se deu conta de como estava mostrou o medo através de seus olhos, era seu alimento. Como lagarta ele se alimentava como os outros insetos desse mundo, agora ele queria o sabor doce das flores. Ele se levantou e sentiu o perfume que emanava daquela pele juvenil. Ele se sentiu velho apesar de ter 25 anos pois aquela moça tinha alguns anos a menos e sua falta de experiência com a vida exalava através de seus poros tendo cheiro de rosas. O aroma o intoxicou de vontades. Foi arrebatado pela luxúria. Tocou cada parte do corpo ainda vestido que se retesava em vão. Cada centímetro lhe dava uma sensação diferente. Ele já havia estado com uma quantidade significativa de mulheres e em nenhuma ocasião elas o fizeram ter tamanho prazer. Mesmo que as outras se entregassem por completo e tentassem mostrar todo seu talento vulgar, nenhuma tinha o atrativo do medo. Sentir que você é a única pessoa com direitos sobre aquele ato dispensa preliminares demoradas pois ele já estava excitado ao máximo. Ele queria estrangulá-la, queria sentir o mesmo que o personagem sentira ao tomar vidas para si. No entanto ele queria que aquele momento durasse, que seu prazer fosse mais que um orgasmo que dura poucos segundos. Então com a ajuda de uma tesoura ele tirou toda a roupa da jovem sem precisar desamarrá-la. Ao terminar pegou o celular e começou a tirar fotos. Enquanto o fazia notava o quanto era inútil achar que precisava da atitude de outra pessoa para que ele sentisse prazer. Ele não precisava que ninguém o tocasse, nem ele mesmo. Seus olhos eram seu novo órgão sexual. Bastava olhar para seu trabalho e sentir o coração bater mais forte enquanto o mundo estava mudo. Para acabar com seu momento inspirador e elucidante a vela se apagou. Ezequiel acendeu mais uma que sibilava mais que a outra e, para esclarecer que não resolveria não querer participar, usou a cera que derretia para pingá-la em vários pontos do corpo de sua vítima. A primeira coisa que viu acontecer foi o corpo dela se arrepiar. Parecia impossível sentir mais prazer e isso ocorreu ao saber que mesmo não querendo nosso corpo responde a tudo que o toca. Ele chegou a cogitar a possibilidade dela estar sentindo o mesmo que ele quando ela começou a chorar. Então ao invés de parar, Ezequiel acendeu mais uma vela e com as duas mãos derramou o líquido quente sobre a pele bronzeada que agora estava quase toda branca de cera. O próximo entretenimento que apesar de barato o satisfazia mais que tv ou sair para tomar cerveja, foi retirar os pedaços secos de cera. Ele gastou quase 1 hora para tirar tudo. Não estava com pressa e se deliciava quando sua mão finalmente tocava a pele desnuda que agora estava vermelha. Então Ezequiel se lembrou que ali corria muito sangue e que se apenas a estrangulasse não teria oportunidade de ver sua textura e cor que se diferenciava de pessoa para pessoa. Chegou a pensar em qual sabor teria. Então procurou alguns lençóis velhos e os colocou em volta e embaixo da cadeira. Dobrados eles ofereciam uma camada grossa que impediria que o sangue que ele queria ver manchasse o piso. E, com a mesma tesoura afiada, começou sua sessão de tortura. Ele cortou as orelhas até o nível que a tesoura o permitiu, tentou cortar seus dedos, arrancou suas pálpebras que se recusavam a assistir aquilo, seus mamilos e a ponta do seu nariz. Ele via o sangue escorrer sobre aquele corpo e quase não se conteve de excitação, lambeu o sangue que descia por sua barriga e acabo deixando escapar um gemido que ele esperava que tivesse sido abafado pelas paredes. Então a luz voltou. Não houve surpresa também porque de certa forma sua vida tinha sido iluminada e ele se sentiu bem ao ver com exatidão tudo que estava vendo através das sombras que a vela criava. Com tanta luz em volta, o sangue brilhava e até as lágrimas eram mais transparentes, mais encantadoras. Ezequiel sabia que o momento de sair do encantamento havia chegado. Tirou mais fotos e sem desviar os olhos dos de sua vítima, ele a estrangulou com as mãos. Não era muito forte, era o que os colegas diziam, sempre ouviu que deveria malhar mas, naquele momento sua força era notável. O pescoço da moça logo estava roxo e seus olhos logo perderam o foco, ela agora olhava para dentro de si mesma. Assim como Ezequiel que finalmente enxergou sua alma que não se fazia visível diante do espelho. Agora era preciso se livrar do que ofereceu a ele bons momentos. A vida é assim mesmo, nada que é bom dura muito. Ninguém o havia visto fazendo nada então ele não seria um suspeito. Sua casa parecia o local perfeito para se desfazer do corpo. A madrugada Já os espreitavam há algum tempo e apesar da energia ter voltado, todos já estavam dormindo, exaustos pela espera. Para concluir seu espetáculo de forma teatral e digna, Ezequiel envolveu a moça nos lençóis banhados de sangue e, juntamente com seus pertences nos quais ele não fez questão de mexer, derramou álcool e fez brotar chamas com velas. O cheiro agora não era nada parecido com o de rosas, poderia ser até suspeito. No entanto seus vizinhos estavam sob efeito do sono; aquela escuridão que aceitamos e que nos protege da realidade. Ela também o protegeria.
   Quando o que restou de sua noite foram cinzas, ele tomou um banho e se certificou que não tinha nenhum fio de cabelo no porta-malas e nenhuma gota de sangue na sala. Após isso, voltou para o escuro dos sonhos. Sua escuridão interior estaria a salvo e em algumas horas, quando ele voltasse ao trabalho, todos voltariam a enxergar suas qualidades exageradas que escondiam os defeitos que o fez perder um dia de trabalho como qualquer ser humano comum.